Reciclagem de vidro artesanal cooperativa na bioconstrução II

Reciclagem de vidro artesanal cooperativa na bioconstrução II

capacitação
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I – A cooperativa:

A capacitação na Cooperativa 100 Dimensão do Riacho Fundo II – DF, foi dividida em quatro módulos. E implementada durante o ano letivo de 2006, da seguinte forma:

Módulo 1 – Blocos pré-moldados em concreto e garrafas de vidro;
Módulo 2 – Azulejos, revestimentos e utilitários de vidro fundido;
Módulo 3 – Arranjo produtivo e comercialização da produção;
Módulo 4 – Capacitação de facilitadores para reaplicação da experiência.

“Filhos ladrilhos”, para a Residência de Ricardo e Sandra, em 2004. Aprendendo a arte, com a mestra Renata Valls.7
“Filhos ladrilhos”, para a Residência de Ricardo e Sandra, em 2004. Aprendendo a arte, com a mestra Renata Valls.7

Aliás, concluímos os três primeiros movimentos normalmente, com êxito. Para isso, já que o forno não fora instalado, realizamos parte das aulas fora de cooperativa. Anteriormente, em parceria com o Atelier Verde Garrafa e com outros colegas artesãos, que tinham o forno instalado. E em outubro e novembro daquele ano também realizamos exibições das peças em dois congressos e feiras de meio ambiente. Bem como em evento no Supremo Tribunal Federal, com grande aceitação. Os alunos estavam empolgados e nós, da instituição, também.

II – O início dos problemas:

O último módulo, entretanto, que eventualmente consolidaria o primeiro passo para a continuidade da ação proposta – a ser replicada em outras cooperativas -, foi interrompido. Enquanto eu concluía a redação e sistematização da pesquisa. Ainda aguardávamos recursos para a instalação elétrica do forno comprado. Tendo em vista que o custo da instalação – despesa com infraestrutura – não fora contemplado pelo edital do MC&T. Defendi conquanto o trabalho CONSTRUÇÃO COM VIDRO, GENTE E SUCATA em julho. E fui aprovada, mas o forno continuou inativo. Ademais, o ano de 2007 passou, sem que retomássemos as atividades.

Em dezembro de 2007, o Grupo Reciclo do CDS finalmente conseguiu a liberação de recursos para ligar o forno. E o inesperado aconteceu. Fui informada de que a cooperativa enfrentava uma crise política interna. Em lugar de dar continuidade ao projeto em outra cooperativa. Ou mesmo renovar as bases de nosso acordo na própria 100 Dimensão. A coordenação do projeto recolheu o forno.

E isto, porque, de acordo com o edital do MC&T, o equipamento havia sido comprado para uso dos catadores cooperados. Mas, contudo, integrava o patrimônio da universidade. De modo que a instalação do equipamento foi realizada, assim, no Departamento de Artes. Onde aliás ele se encontra funcionando ainda hoje, na Maquete, a disposição dos alunos daquela instituição.

ONDE SE ENSINA, SE APRENDE – a arte da pesca e a reinvenção da pescaria
“A abundância só pode ser mantida, se círculos cada vez maiores são convidados a participar dela” (Abundância, I Ching)

O messianismo e a idealização podem ser fortes inimigos da efetiva concretização de uma boa ideia?

Quando esse projeto foi imaginado. Com o objetivo de contribuir para a redução da desigualdade social. E de promover oportunidade de capacitação profissional dos catadores de resíduos recicláveis. Outros atores não foram percebidos, nem convidados.

Meu convite à inclusão de “círculos cada vez maiores”, se restringia aos catadores, à população “carente”, os excluídos. Por mim percebidos como população excluída (do que Milton Santos chamou de “circuito superior da economia”: ou mal incluídos nela). A inclusão dos que estavam “acima” de mim na hierarquia institucional. E coordenando a proposta inovadora que eu sonhara, não estava prevista nos meus planos.

Convidada para participar do meu próprio projeto de pesquisa em um novo grupo formado isso. Eu os percebia como ameaças a minha suposta autonomia. Em vez de acolher o interesse e a capacidade da instituição de encontrar recursos para o financiamento do projeto. Durante todo o período em que trabalhamos juntos, eu sentia meu protagonismo diluído e minha autoria usurpada. Eu resistia a isso.

Meu orientador na época, chefe do departamento, tentava me explicar as “normas ocultas” da instituição. “Ninguém faz nada sozinho”. Assim, delicadamente sugeria que juntos somavamos mais chances de viabilizar a proposta. Que eu havia apresentado (aparentemente) “sozinha”.

III – Rendição do ego:

Era aceitar ou ver o trabalho ser implementado sem minha participação: me rendi. Desde que eles incluíssem outras formas de reciclagem nos objetivos do grupo. E reciclagem de vidro permaneceu como “minha”. Ainda que sob coordenação de outra professora mais antiga, vinculada à casa.

Em comum, eu e o grupo Reciclo, tínhamos o desejo de implementar a inovadora reciclagem artesanal de vidro proposta. E eu – vaidosa dessa autoria – não me interessava em me subordinar a nada. Muito menos à hierarquia da universidade.

A reciclagem do vidro em larga escala em nosso país é bem reduzida (em torno de 46% do resíduo gerado em 2006). Diversos fatores limitam maior extensão dessa prática. Como o alto custo de transporte e ICMS do resíduo, quebradiço e cortante. A mistura em qualidade de material e pigmentos, entre outros). Esse era o interesse principal deles nessa pesquisa – propor alternativas para a reciclagem e a reutilização do vidro. O meu era “ajudar muitas pessoas a mudar de vida, usando a criatividade”. Essas perspectivas eram tanto diversas, como complementares. Mas eu só percebo isso dessa maneira muito tempo depois.

IV – A percepção da importância de todos:

Todos nós – os criadores, os gestores técnicos, os órgãos de fomento e os catadores – tínhamos um lugar próprio e fundamental no desenvolvimento desse projeto sócio-ambiental. Que eventualmente poderia chegar a política pública e a ser aplicada em maior escala. Os tais círculos “cada vez maiores”. A incluir para manter a abundância, envolviam muito mais atores do que eu percebia.

Ou seja, os excluídos dos meios de produção incluíam muitos outros círculos. Que eu, em meu impossível monólogo assistencialista, não admitia. As agencias de fomento, os técnicos, os gestores, as novas ideias. E até mesmo as sugestões de outros usos e aplicações da técnica de reciclagem, as outras cooperativas.

Não basta Reduzir, Reutilizar e Reciclar o material descartado (necessariamente nessa ordem). É também Reciclar o suficiente (na escala necessária a compensar o volume do descarte produzido). Essa proposta de reciclagem artesanal de vidro alcança escala ao ser compartilhada com o maior numero de cooperativas. E assim fomentando diversos núcleos autônomos de produção local. Reunidos em rede de produção regional e orientados por princípios de sustentabilidade. Quais sejam: economia solidária, direitos humanos e ecologia.

ECONOMIA SOLIDÁRIA ou ECONOMIA SOLITÁRIA? – autonomia ou hierarquia?

A externalidade da construção do sistema proposto também desafiou um dos objetivos do núcleo proposto. A questão da apropriação da tecnologia pelos grupos cooperados, exige um olhar mais acurado dessa pesquisadora.

Embora a proposta de execução “dentro da cooperativa”. De produtos criados “fora da cooperativa”. Decerto eventualmente importe efetivo valor de troca (potencial) no mercado. Inegavelmente prejudica a autonomia da gestão dessas práticas pela cooperativa. Que, de fato, nos abrigou. E os cooperados não podiam parar suas atividades para participar da nossa capacitação.

Assim, apenas alguns de nossos alunos eram de fato cooperados. Captamos outros alunos, com ajuda deles, na comunidade da região. A incorporação dos meios de produção à cooperativa, pressupõe a uma construção coletiva dos objetivos. Que serão desenvolvidos, adequando-se à realidade específica do grupo. De fato, todos estivemos aprendendo juntos a pescar. Todos tínhamos habilidades e alguma coisa a compartilhar nessa relação.

A despeito de minha pretensão de compartilhar “meu peixe” com eles. Ou de querer ensiná-los a arte da pesca. Aquele que vem “de fora”. E talvez “sozinho” ensinar, tem sempre muito mais a aprender num ambiente de cooperação. Especialmente quanto às estratégias de sobrevivência e de cooperação dos grupos que quer ajudar. Bem com às de obtenção de recursos e de financiamento para essas políticas públicas de fomento e de capacitação.

V – A necessidade da apropriação social:

A primeira coisa fundamental que aprendi é que, para ser apropriado, um projeto como esse deve promover a autonomia do grupo. Ensinar a pescar ou pescar junto com eles, em vez de apadrinhá-lo. Ou seja, trazer o peixe pronto para comer.

Qualquer projeto que queira participar da construção de redes de cooperação solidária. Decerto deverá levar em conta não só a capacitação da população. Mas ser capaz de gerir e construir, observando a natureza e os saberes intrínsecos daquela comunidade criativa. Assim, será talvez possível fecundar algo vivo. Que possa crescer e continuar a se desenvolver com autonomia. Com gestão comunitária, depois de concluída a etapa de incubação. Do fomento dos investimentos e do “olhar estrangeiro” vindo da universidade.

Núcleos de reciclagem com vida própria, a serviço da capacidade criativa de cada comunidade. Que as cooperativas possam chamar de “seus”. Sem essa autonomia, não há chance de desenvolvimento.

Seria só paternalismo messiânico, que cessa com o fim da participação da “legião estrangeira”. O máximo que podemos propor, sem a participação efetiva da população é uma economia solidária. E a natureza da economia solidária é precisamente sua apropriação social.




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Turyna Adriana

A autora é jornalista (PUC/Rio, 2016), arquiteta e Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (Brasília, 1987 e 2007). É apaixonada por Arquitetura Bioclimática, Bioconstrução, Permacultura, e Projetos de Economia Solidária e de Inclusão Social. Atua especialmente em projetos que priorizam a reciclagem e a reutilização de vidro, a construção com reaproveitamento de materiais recicláveis, a sustentabilidade, a redução do desperdício, a cooperação e a inclusão social. Desde 2002, em seu Atelier Verde Garrafa, a arquiteta candanga desenvolve e produz blocos vitrais pré-moldados e azulejos de vidro, reutilizando garrafas de vidro descartadas no Distrito Federal. Vive no Rio de Janeiro, onde desenvolve projetos autorais de fotografia, de animação (stop motion) e de publicação. Revisitando regularmente, a prática da escrita e da ilustração. A coluna REINVENTO trará matérias sobre experiências de ecoeficiência na construção – tais como a reutilização de materiais recicláveis e naturais, reaproveitamento de água da chuva, produção de energia limpa, paisagismo produtivo, tratamento ecológico de resíduos, arquitetura bioclimática, entre outras práticas sócio-ambientalmente sustentáveis. TURYNA (Adriana) / Skype reinventoturyna@gmail.com

2 comentários em “Reciclagem de vidro artesanal cooperativa na bioconstrução II

  • janeiro 23, 2019 em 7:09 pm
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    A difícil arte de lidar com a vaidade acadêmica. Turyna, você tem meu respeito e admiração.

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    • março 12, 2019 em 4:22 pm
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      Muito obrigada, querida. É uma arte aprender a integrar todas os atores sociais. Um grande aprendizado.

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