Saturno em conjunção com Plutão em Capricórnio: uma reflexão astro-histórica dos sujeitos e suas estruturas sociais

Saturno em conjunção com Plutão em Capricórnio: uma reflexão astro-histórica dos sujeitos e suas estruturas sociais

Neste artigo uso os parâmetros de sujeito conceituado pelo sociólogo Stuart Hall. Para ele há três tipos de sujeitos históricos:
o primeiro –

O “sujeito do Iluminismo” que permitiu emergir a pessoa humana centrada em si mesma, e pautada na racionalidade.

Assim Hall diz que “o centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa.”

Astrologicamente esse centro da essência pode ser representado pelo Sol, e justamente esta época histórica ficou conhecida como o advento das luzes em oposição às trevas do medievo.

Anterior a este período, os homens e mulheres não eram sujeitos de si mesmos, mas produtos estanques dentro do sistema feudal. Assim era a sociedade estamental que pouco movia suas bases e quase era inalterada na sua estrutura de poder.

Aqui podemos relacionar uma forte influência de Saturno, mostrando toda sua duração tradicional e como os homens e mulheres em sua maioria obedeciam com rigor suas regras.

o segundo –

O “sujeito sociológico” que emergiu com o Renascimento, trazendo a relação entre o sujeito centrado em si e as demais pessoas que interagem com ele e o entorno que o circunscreve no tempo.

Aqui podemos relacionar este sujeito sociológico com Júpiter, planeta voltado aos avanços sociais, como os estudos superiores, as leis, a ética e todas as demandas para um suposto bem viver em sociedade.

Este sujeito sociológico é o reflexo do homem e sua complexidade de viver num tempo em expansão cultural.

Aqui a pessoa percebe que o eu absoluto não é possível, mas está em desenvolvimento de acordo com o envolvimento com outras pessoas e o exterior a ele, ou seja, a cultura.

No entanto, esse eu individualizado em essência continua sendo o que é, mas em constante mobilidade, movendo-se de si para o outro e recebendo do outro para si.

Na relação entre o sujeito social que é a permeabilidade entre o “eu” individual e entre o “nós” social, é que se possibilita a criação de identidades que assumam, ocupem, ou sejam de alguma forma uma personagem dentro da cultura de seu tempo.

É um desdobramento em que se realiza em um papel social, formando assim as identidades. A partir das identidades formam-se grupos, identificam-se desejos e símbolos, emergem novas culturas.

o terceiro –

Já o “sujeito pós-moderno” de Hall está fragmentado, por assim dizer desterritorializado, pois não se identifica apenas com um grupo/cultura que lhe outorgue uma identidade clara e precisa, mas se relaciona com diferentes grupos/culturas que promovem desejos que se conflitam na suposta essência do eu.

Para Hall, a pessoa pós-moderna não vive ao redor de um eu essencial, aqui o indivíduo fragmentado é produção histórica, experimento de seu tempo.

“Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora “narrativa do eu”.

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia.” Disserta Hall.

Para Hall, as sociedades modernas realizam mudanças que ocorrem em demasiada velocidade e são permanentes no tempo o que difere das sociedades tradicionais, que eram estáveis no tempo, mas atualmente estão em decadência.

Aqui no pós-modernismo do tempo presente, temos o encontro do novo e do velho.

Astrologicamente até Saturno (tempo tradicional) e no tempo presente há emergência de Urano, Netuno e Plutão regendo o moderno, pós-moderno e além (os novos tempos) ao menos por enquanto.

A tradição com seus símbolos e toda uma estrutura de poder que dá uma estabilidade no tempo, são representadas por Saturno.

A necessidade de transformação total, ou seja, a morte, é representada por Plutão.

A tradição ocultou a morte, para se manter no poder.

Isto quer dizer que, as instituições responsáveis pela manutenção do status quo, detém o poder sobre as vidas e as mortes das pessoas, como já foi estudado por Michel Foucault.

Somos quase autômatos dentro dos ditames tradicionalistas, a saúde, a educação, a segurança, as religiosidades são nos apresentadas arbitrariamente por seus representantes oficiais (a saúde-médico-remédio / a educação-escola-escola sem partido / segurança-polícia-armas de fogo / religiões-sacerdote-tabus-pecados-destinos.).

Saturno está em conjunção com Plutão no signo de Capricórnio desde este ano de 2019 até 2020.

Saturno é regente de Capricórnio, o signo da cabra-peixe, representante da consolidação da matéria, da responsabilidade espiritual pela concretude real do tempo.

Capricórnio pode ser lido como uma representação da própria encarnação, seja do corpo físico, com sua estrutura óssea que proporciona o deslocamento e a precisão e por isso os homens e mulheres possuem uma continuidade no tempo, e através das sociedades humanas e suas diferentes estruturas de poder, capaz da manutenção cronológica, mas, no entanto, tudo isso finda, ou seja, o corpo morre e as sociedades entram em decadência, após, outro corpo nasce e outra sociedade se ergue no palco dos tempos. Assim Capricórnio honra Saturno, o senhor do tempo.

No entanto, historicamente, a construção social dos sujeitos quis que a morte e a transcendência ficassem ocultas, e isso fica evidente desde o advento da modernidade.

No período medieval, ainda se barganhava pela salvação ou danação de uma forma mais contundente.

A morte era uma realidade notável, presente e ameaçadora.

Na modernidade ela se oculta na cura ou na ênfase de uma juventude. A medicina previne a morte.

A religião cristã ainda promove salvações ou condenações. A culpa cristã faz surgir neuroses, doenças de corpo, mente e espírito, aliás, não há lugar para o espírito.

Pois com a ascensão capitalística, a cabra-peixe de Capricórnio, teve sua metade peixe relegada ao ostracismo, ao obscurantismo.

A cabra é o labor, a concretização da ambição que sem o fim espiritual (peixe) do propósito ficou refém do capital, do dinheiro. Estagnou.

Então a conjunção de Plutão com Saturno no signo de Capricórnio, simbolicamente representa o processo atual histórico da quebra das estruturas sociais do capitalismo que já não se sustentam, pois as máscaras sociais da contraparte peixe, que é a falsa moralidade institucional estão sendo expostas.

As representatividades políticas e as sacerdotais estão se mostrando um retrocesso em que se pressupõem inabaláveis por estarem relegadas à tradição, no entanto, a decadência é inerente, com Saturno conjunto a Plutão em Capricórnio.

Para tentar manter a ordem das instituições de poder, os donos do capital, os governos, e as religiões que compactuam entre si e irão se endurecer ainda mais, o que podemos esperar é um conservadorismo e uma postura direitista ainda mais acirrada.

Plutão elevará a intensidade das corrupções, dos crimes, das hipocrisias, levando à tona as imoralidades das estruturas saturninas.

O povo que é simbolizado pela Lua, sofre, é o que sente na pele o fardo do tempo.

Um fator que pode amenizar o impacto do senhor da morte com o senhor do tempo em nossas vidas pessoais é a disposição para encararmos de frente a morte nossa de cada dia.

A morte do ontem que já foi, a morte de uma idéia ultrapassada, de um projeto que não tem mais vigor, de um amor que já não existe, de um ódio enraizado, de uma razão preconceituosa, de um sonho irrealizável…

De cada espaço que a morte deixa atrás, algo nasce à frente.

O vazio é o tempo estagnado das mortes que não aceitamos. Que nos ocultam culturalmente.

O impasse entre o velho e o novo, entre o conflito existencial-identitário do sujeito pós-moderno que tem dentro de si, de sua história, fragmentos do sujeito arcaico ao moderno está diante do após, do além da morte, além de Plutão, aonde ainda não chegamos e não sabemos no que vai dar e nem o que nos espera.

O que há de certo é a ruína, a morte, das estruturas sociais que não atendem ao novo, ao diferente, que pretende invalidar os sujeitos que emergem da pós-modernidade, com suas identidades próprias, forjadas em diferentes frentes, e que pertencem a vários grupos, vários gêneros que vão além do binarismo, com diferentes sexualidades, saindo fora do status quo e atualmente estando à margem e até correndo risco de morte.

O espírito dos novos tempos está “pedindo” passagem.

Que se abra espaço para o novo, pois já está!




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Fabiane Marques

Astróloga e Historiadora, dançarina e poeta, vai entre os encontros da mente e da expressão, extraindo dos símbolos as conexões entre o existir e o sentir. No passo dos dias atendendo aos comandos do coração para fazer da vida a arte, da escrita a profissão, da dança o caminho, e da poesia a ação. Nada mais, nada a menos para Sol, Lua, Mercúrio e Ascendente em Gêmeos e uma Vênus em Touro, para o ar aterrissar. Contato: famarquescxs@hotmail.com Visite: http://trigonosastrais.blogspot.com/ http://fantasiasdoreal.blogspot.com/ Fabiane Marques

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