Conto sufi – As cidades parte IV

Conto sufi – As cidades parte IV

Eu segui seu aviso

e fui assim a cidade dos guerreiros.

As pessoas que ali encontraria eram débeis e delgadas;
gentis, pensativas, agradecidas;
devotas das orações, obedientes, contemplativas e meditativas.

Sua força se consistia em colocar em ação aquilo que sabiam.

Me tornei íntimo deles e vi que haviam abandonado todas as falhas de caráter produzidas pelo egoísmo e pela idolatria e pelas sombras da inconsciência.

Haviam se construído para serem servidores,
unidos ao seu senhor e contentes com sua condição.

Permaneci nesse distrito dos guerreiros gentis por muitos anos.
Atuei como eles atuavam e vivi como eles viviam, observando como eu atuava e como eu vivia, sem deixar escapar um instante que fosse por negligência.
Aprendi e mostrei paciência e tolerância, e aprendi a estar feliz e satisfeito com minha parcela, e eu estava feliz e satisfeito.

Lutei duramente dia e noite, e com meu ego.

Porém ainda permanecia em mim o politeísmo
resultante de muitos dos meus eus combatendo-se entre si,

apesar de que todos acabavam por enfrentar a Alá.

Esta, a minha enfermidade de shirk khafi – de colocar muitos eus como sendo sócios de Alá me rendiam pesadas sombras sobre o meu coração, isso escondia a verdade e me mantinha no descuido.

Perguntei aos médicos do distrito, roguei-lhes.
Falei com eles sobre a minha doença, o oculto politeísmo, a horrível negligência, o coração sombrio, e lhes pedi ajuda.
Eles me disseram:

Ainda nesse lugar daqueles que batalham com seus egos,
não existe cura para sua doença,

porque

“Ele está com você onde queira que vá”
(Sura Hadid, 4)

Então me aconselharam a viajar na direção do castelo de Mutma ina, a cidade da paz e da tranqüilidade.
Perto dessa cidade, havia um distrito chamado Munajaat wa Muraqaba—suplica e meditação.
Pode ser que ali, disseram eles, haja um médico para curá-lo.

Quando cheguei ao distrito da meditação, vi seus habitantes, quietos e passivos, recordando a Alá internamente, recitando seus Belos Nomes.

A todos e cada um deles tinha-lhes nascido um filho do coração.

Permaneciam em pé, com suas cabeças inclinadas na presença de seu Senhor, silenciosos, melancólicos, tristes, em profunda veneração.

No entanto, apesar de seu exterior parecer em ruínas, aniquilados, seus corações brilhavam e floresciam.
Seus modos eram gentis e corteses.
Raramente falavam entre si, por temor de distrair a atenção do outro, de impedir-se de permanecer em profunda meditação.

Eram leves como penas,

e no entanto, seu maior temor era ser uma carga e um peso sobre os outros.

Passei muitos anos no distrito da meditação e da contemplação.
Fiz como eles faziam, e sem dúvidas eu pensava que estava finalmente curado do descuido, do politeísmo e da inconsciência.

Mas não estava curado do culto do Holismo.

“Eu” e do “ele” que ainda rogava pesadas sombras sobre meu coração.

Minhas lágrimas corriam em torrentes.
Miseráveis, macilentos, em total temor, caí num estranho estado onde uma grande tristeza me rodeava.
Decidi me afogar neste mar.
Não encontrei outra solução senão morrer.
Não podia fazer coisa alguma, não possuía vontade sequer para morrer.

No entanto, permanecia lá, impotente, entristecido, em êxtase, apareceu nesse lugar um lindo Mestre.
Ele era chamado Hidaya, ou Guia.
Contemplou-me com olhos compassivos:

Oh! pobre escravo de si mesmo, em exílio nesta terra estrangeira!
Oh! Peregrino longe de seu lar!
Oh! Pobre miserável, não pode encontrar sua cura nesse estado de espírito.

Abandone este lugar, vá a esse distrito, mais para lá, ao lado das portas do castelo de Mutma ina.
O nome desse lugar é Fana – auto-aniquilação.
Lá se encontram médicos que tenham aniquilado a si mesmos, os que não possuem ser, os que não conhecem o segredo de fa-afnu thumma afnu thumma afnu fa – abku thumma abku.
Não seja .. não seja, não seja, de forma que tu serás, de modo que tu serás, de forma que tu serás para sempre.

Imediatamente fui ao distrito da aniquilação.

Vi sua população muda, sem palavras, como mortas, carente de forças como para emitir alguma palavra, tinham abandonado quaisquer esperanças de benefício de falar, e estavam preparados para entregar suas almas ao anjo da Morte.
Estavam totalmente desinteressadas de saber se eu estava lá ou não.

Não via realizar ação alguma entre eles, com exceção de suas preces 5 vezes ao dia.
Tinham perdido o conceito de separação entre este mundo e o mais além.
Tanto a dor como a alegria eram iguais, tinham abandonado o gosto, tanto das coisas materiais como das espirituais.

Nenhum pensamento lhes preocupava, nada lembravam, tampouco nada esperavam.

Toda a necessidade e desejo lhes era estranho.

Tinham suprimido o suplicar a Alá por aquilo que desejavam.

Fiquei com eles por muitos anos, fiz o que eles faziam, não me diferenciava deles, mas ao não conhecer seu estado interior, não podia fazer o que eles faziam internamente.

Neste lugar entre eles, ainda senti uma grande dor.
No entanto, quando desejava escrever os sintomas de minha enfermidade, me era impossível encontrar um corpo, em existência alguma, que permitisse dizer:

“Este é o meu corpo”,
ou “Este sou eu”.

Soube então que aquilo era “eu”, se convertia em meu dono, soube então que dizer:

“Esse ser é meu!”

Constitui-se numa mentira, e mentir é um pecado para qualquer um.
Soube então que pedir ao verdadeiro dono por aquilo que era “meu” era oculto politeísmo do qual tinha desejado liberar-me.

E agora, o que deveria fazer?




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Claudia Araujo

Aquário com Gêmeos, sou muitas e uma só. Por amar criar com as mãos, sou designer de biojóias e mantenho o site terrabrasillis.com, assim como pinto aquarelas e outras ¨manualidades¨. Por não me entender sem a busca do mundo interno do outro, sou astróloga com 4 anos e meio de formação em psicologia analítica sob a supervisão de José Raimundo Gomes no CBPJ – ISER e já mantive por anos o site Meio do Céu. Nessa nova etapa mantenho o site grupomeiodoceu.com. Dou consultas astrológicas e promovo grupos de estudo de Jung e Astrologia, presenciais e online. São várias vidas vividas numa única existência, mas minha verdadeira história começa aos 36 anos, e o que vivi antes ou minha formação acadêmica anterior, já nem lembro, foi de outra Claudia que se encerrou em 1988. Só sei que uso cotidianamente aquilo em que me tornei, e busco sempre não passar de raspão pelo mapa astrológico do outro. Mergulhar é preciso, e ajudar o outro a se transformar, algo imprescindível. Só o verdadeiro autoconhecimento pode gerar transformação. Não existe mágica, e essa autotransformação não ocorre via profissional, mas apenas através do real interesse do cliente em buscar reconhecer como se manifesta em sua vida cotidiana e qual seu potencial para a transformação. Todos somos mais do que aquilo que vivenciamos. A busca deve passar sempre pelo reconhecimento daquele eu desconhecido que em nós mesmos habita. A Astrologia é um facilitador nessa busca porque nela estão contidos tanto nossos aspectos luz quanto sombra. Ela resolve nossos problemas? A resposta é não. Ela apenas orienta no sentido do reconhecimento de nossa totalidade. A busca é do cliente. A leitura é do astrólogo, mas só o cliente poderá encontrar o caminho de sua totalidade e crescimento responsável. websites : www.terrabrasillis.com e www.grupomeiodoceu.com Fale com Claudia direto no Whatsapp

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