Os Distúrbios Alimentares II

Os Distúrbios Alimentares II

Anyara Menezes Lasheras

Outro mito que se presta aos quadros de anorexia nervosa na população feminina é o de Deméter/Core-Perséfone.

Nele encontra-se a jovem Core, que é superamada por sua mãe Deméter.

Core é raptada por Hades com o consentimento de Zeus (seu pai) e levada ao Hades, vindo a se transformar em Perséfone, a rainha dos Infernos (Hades).

Ela não deveria comer nada enquanto estivesse no Hades, pois senão ficaria presa por lá.

Ela nada comeu até o dia em que foi permitido seu retorno ao mundo para encontrar sua mãe que estava desesperada a sua procura.

Neste dia ela comeu uns grãos de romã que lhe dariam o direito a retornar ao Hades.

Neste mito observa-se o intenso e neurótico vínculo entre mãe e filha.

Enquanto Core, a eterna jovem, vemos a mulher que está entrando para o estágio de transição para a fase adulta.

Mas, dessa forma, teme fazer a passagem, assumir as responsabilidades – por isso é comum a anorexia nervosa apresentar-se na adolescência – do crescer, da escolha vocacional ou profissional, da sua sexualidade.

Zeus, um pai passivo ou ausente, concorda com o rapto.

Isto é o que faz a anoréxica mostrar-se uma jovem fria, perfeccionista, rígida e crítica demais.

E isso a impede de relacionar-se adequadamente com as pessoas que a cercam.

É o Arquétipo do Pai que não foi bem elaborado.

No Hades ela não deve comer, comer significa desistir de voltar para o mundo da mãe – proteção, ausência de responsabilidades, acomodação, passividade.

Crescer, ir para o Hades é ter que abandonar o paraíso.

O mundo materno é esse paraíso.

Core não cuida, precisa de cuidados.

Já como Perséfone ela deverá aprender a cuidar de si mesma.

Descer ao Hades é mergulhar no seu mundo interior e descobrir-se, assumir sua própria identidade.

Mas a Perséfone, antes de comer os grãos de romã, é aquela que não permite ser nutrida e não nutri a si própria (como fazem as anoréxicas).

Como Deméter, a mãe de uma anoréxica é superprotetora e não consegue aceitar sua impotência para concordar com o distanciamento que deve permitir à filha.

Aqui o distanciamento significa permitir que a filha seja apenas ela mesma.

É admitir que ela cresceu e deve assumir-se como um ser único.

O mito do Herói, que utiliza o Arquétipo do Herói, pode ser empregado para amplificar a simbologia nos quadros de obesidade masculina.

Saliento que o Arquétipo do Herói é constelado por homens e mulheres, e que tratarei do quadro de obesidade masculina visto que a anorexia nervosa e a bulimia são pouco freqüentes na população masculina.

O herói é descrito, via de regra, como sendo filho de pessoas ilustres, de reis, de deuses com humanos, ou é o próprio rei.

Desde o seu nascimento, é marcado por situações
desafiadoras para sua própria sobrevivência.

É órfão, por falecimento ou por ter sido abandonado pelos pais ou por um deles, em razão de alguma ameaça profetizada, antes mesmo de seu nascimento.

Então, é acolhido por outra família.

Geralmente, muito humilde, e, acaba por se destacar por alguma habilidade.

Então, acaba por descobrir sua progênie e se dá início a jornada de reconquista da sua identidade.

E, assim, retornando ao local de origem, retaliando o vilão ou seu pai, salvando a donzela ou vítima e conquistando sua própria soberania.

Mas, de um modo geral, deve morrer em seguida, para assim ser declarado herói.

É um arquétipo que representa o chamado e a luta pela individuação.

Porém, pode ser constelado todas as vezes que uma pessoa passar por um momento de conflito e em fases onde grandes mudanças serão provocadas.

Assim, todos os indivíduos sentem-se desamparados (órfãos)
quando se faz necessário desligar-se dos progenitores.

Seja em busca de seu próprio caminho, ou, então, quando devem abandonar uma postura de vida até então muito confortável.

Também, se sentem desamparados frente às exigências irracionais do ego.

E, desta maneira, há uma convocação para travar uma luta dolorosa para atingir o momento de se declararem indivíduos, comandantes das próprias naus, denominadas vida.

Jung afirmou que a individuação é um processo para toda a vida.

A cada dia, ruma-se em frente, no fluxo do processo de individuação.

Mas isso não significa que a individuação estará ao alcance do indivíduo somente ao final da sua existência.

Antes mesmo de seu fim, deve estar em maior harmonia e integrado com o seu próprio Self.

Poderá estar individuado, embora, não completamente.

Na verdade, como a individuação é um processo, estará se individuando.

Além disso, não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos a enfrentaram antes de nós.

O labirinto é conhecido em toda a sua extensão.

Temos apenas de seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus.

E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos.

Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro da nossa própria existência.

E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo. (Campbell, 1996, p. 131).

Estar-se-á, assim, nos domínios do inconsciente coletivo.




Deixe seu like e siga nossa Rede Social:
0

MeiodoCeu

material originário do antigo site Meio do Céu - Claudia Araujo, hoje denominado Grupo Meio do Céu - Claudia Araujo e composto por diversos novos colunistas. Essa é uma maneira de preservar o material do antigo site, assim como homenagear aqueles que não mais escrevem no site e/ou não mais estão entre nós nesse plano da existência. Claudia Araujo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *