O Espelho Negro Mágico do Mago John Dee II

O Espelho Negro Mágico do Mago John Dee II

Flavio Lins

A única consolação que se pode ter é de pensar que Talbott, aliás, Kelly, morreu em fevereiro de 1595, tentando escapar da prisão de Praga.

Como era muito grande e gordo, a corda que confeccionara rompeu-se e ele quebrou os braços e as pernas. Um justo fim a um dos mais sinistros crápulas que a história conheceu.

Apesar da proteção de Elizabeth, Dee continuou a ser perseguido. Seus manuscritos foram roubados assim como uma grande parte de suas anotações.

Estava na miséria, temos que reconhecer que parcialmente a merecera.

E após ter explicado à Rainha Elizabeth da Inglaterra que era alquimista, solicitara um amparo financeiro.

Elizabeth da Inglaterra disse-lhe, muito sabiamente, que se ele sabia fazer o ouro, não precisava de subvenções, pois teria suas próprias.

Finalmente, John Dee foi obrigado a vender sua imensa biblioteca para viver e, de certo modo, morreu de fome.

Comentários falsos e de contra – informação obscureceram o verdadeiro problema.

Esse consistia na língua enoquiana, a dos livros de John Dee que nunca chegaram a ser publicados.

Jacques Sadoul, em sua obra “O Tesouro dos Alquimistas”, conta muito bem à parte propriamente alquimista das aventuras do Doutor Dee e de Kelly.

Recomendo-o aos leitores, se o encontrarem, o que é um pouco difícil.

Voltemos à linguagem enoquiana e ao que se seguiu.

Falemos primeiro da perseguição que se abateu sobre John Dee, desde que começou a dar a entender que publicaria suas entrevistas com “anjos” não-humanos.

Em 1597, em sua ausência, desconhecidos excitaram a multidão a atacar sua casa.

Quatro mil obras raras e cinco manuscritos desapareceram definitivamente, e numerosas notas foram queimadas.

Depois a perseguição continuou apesar da proteção da Rainha da Inglaterra.

Foi, finalmente, um homem quebrado, desacreditado, como o seria mais tarde Madame Blavatsky, que morreu aos 81 anos de idade, em 1608, em Motlake.

Uma vez mais a conspiração dos Homens de Negro parece ter vencido.

A excelente enciclopédia inglesa “Man, Myth ande Magic” observou muito bem em seu artigo sobre John Dee: “Apesar de os documentos sobre a vida de John Dee serem abundantes, fez-se pouca coisa para explicá-lo e interpretá-lo”. Isto é verdade.

Outrossim, as mentiras contra Dee não faltam.

Nas épocas de superstição afirmava-se que ele faria magia negra.

Em nossa época racionalista acreditam que seria um espião, que fazia alquimia e magia negra para camuflar suas verdadeiras atividades.

Tal tese é da enciclopédia inglesa que cito acima.

Entretanto, quando examinamos os fatos, vemos primeiro um homem bem dotado, capaz de trabalhar 22 horas ao dia, leitor rápido, matemático de primeira ordem.

Ademais, ele construiu robôs, foi um especialista de óptica e de suas aplicações militares, e da química.

Que foi ingênuo e crédulo, é possível.

A história de Kelly o mostra.

Mas que fez uma importante descoberta, a mais importante, talvez, da história da humanidade, não está totalmente excluso.

Parece-me possível, contudo, que Dee tenha tomado contato, por telepatia ou clarividência, ou outro meio parapsicológico. Sobretudo, com seres não-humanos.

Era natural, dada a mentalidade da época, que ele atribuísse a esses seres uma origem Angélica. Portanto, não aventava vir de outro planeta ou de outra dimensão.

Mas comunicou-se bastante com eles para aprender uma língua não-humana.

A ideia de inventar uma língua inteiramente nova não pertencia à época de John Dee e nem de sua mentalidade.

Foi muito depois que Wilkins inventou a primeira linguagem sintética.

A linguagem enoquiana é completa e não se parece com nenhuma língua humana.

É possível, evidentemente, que Dee a tenha tirado integralmente de seu subconsciente ou inconsciente coletivo. Entretanto, tal hipótese é tão fantástica quanto à da comunicação com seres extraterrestres.

Infelizmente, a partir da intervenção de Kelly, as conversações estão visivelmente truncadas.

Kelly inventa-as e faz dizer aos anjos ou espíritos o que lhe convinha.

E do ponto de vista de inteligência e imaginação Kelly era pouco dotado.

Possuem-se notas sobre má conversação onde pede a um dos “espíritos” cem libras esterlinas durante quinze dias.

Antes de conhecer Kelly, entretanto, Dee publicara um livro estranho: A Mônada Hieroglífica.

Trabalhou nesse livro sete anos, mas após ter lido a Steganographie, terminou-o em doze dias.

Um homem de Estado contemporâneo, Sir William Cecil, declarou que:

“os segredos que se encontram na A Mônada Hieroglífica são da maior importância para a segurança do reino”.

Certamente, quer-se ligar tais segredos à criptografia, o que é bastante provável.

Mas quando se quer relacionar tudo em John Dee com a hipótese de espionagem, isto me parece excessivo.

Decerto, tanto os alquimistas quanto os mágicos utilizavam muito a criptografia, sob as formas mais complexas que não eram usadas pelos espiões.

Tenho a tendência de tomar Dee ao pé da letra e pensar que, por auto-hipnose produzida pelo seu espelho, ou por outras formas desconhecidas, ele ultrapassou uma barreira, entre os planetas ou entre outras dimensões.

Ele era, por própria confissão, desprovido de todos os dons paranormais.

Foi aceito pelos “médiuns” e isto terminou em desastre, como sempre acontece.

Desastre, aliás, provocado, explorado, multiplicado pelos médiuns e pelos “Superiores”.

Eles não queriam que ele publicasse as claras o que disse em código na A Mônada Hieroglífica.

A perseguição de Dee começou em 1587 e só parou com sua morte.

Exerceram-se, aliás, também no continente esta perseguição, onde o rei da Polônia e o Imperador Rodolfo II foram advertidos contra Dee por mensagens “vindas dos espíritos”, mais uma mentira deslavada usada até hoje por muitos.

Foi um homem amedrontado que chegou à Inglaterra, renunciando a publicar suas obras, e que morreu como reitor do Colégio de Cristo, em Manchester, posto que teve de 1595 a 1605 e que, ao que parece, não lhe deu satisfação.

Resta ainda, a respeito desse posto, um problema não resolvido.

Na mesma época o czar da Rússia convidou John Dee para ir até Moscou, a título de conselheiro científico.

Ele deveria receber um salário de duas mil libras esterlinas ao ano, quantia alta correspondente a um pouco mais de duzentos mil reais hoje.

Foi oferecido moradia principesca e uma situação que, de acordo com a carta do czar, “faria dele um dos homens mais importantes da Rússia”.

Entretanto, John Dee recusou.

Elizabeth da Inglaterra teria se oposto? Teria ele recebido ameaças?

Não se sabe, os documentos são vagos.

Em todo caso, as diversas calúnias segundo as quais Dee, completamente dominado por Kelly, percorrera o continente espoliando príncipes e ricos, uns após outros, perdem sua razão de ser quando se considera esta recusa.

Talvez temesse que o czar o obrigaria a empregar segredos que havia descoberto e tornasse, assim, a Rússia dominadora do mundo.

O que quer que seja, Dee se apresenta a nós como um homem que recebeu visitas de seres não-humanos, que aprendeu sua linguagem e procurou estabelecer com eles uma comunicação regular.

O caso é único, sobretudo quando se trata de um homem do valor intelectual de John Dee.




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