O que a meditação não é

O que a meditação não é

Há um tempo, quando comecei a me interessar pelas práticas contemplativas orientais, fiz uma pesquisa no Google. Escrevi a palavra “meditação” e coloquei na categoria “imagens”. Logo após apareceu a foto de um monge sentado no meio dos Himalaias. Imaginei que devia estar completamente concentrado e satisfeito por ter renunciado sua vida mundana. Outra foto era de uma pessoa branca, bonita e com uma expressão pacífica no rosto. Ela estava sentada em postura de lótus num agradável jardim, que me lembrava o Parque Ibirapuera em São Paulo.

As duas coisas pareciam muito distantes da minha realidade naquele momento. Eu não conseguia sentar na postura de lótus, não morava nem trabalhava perto de um parque, e muito menos dos Himalaias. O que seria dessa moça se ela tivesse que levantar com dor nos joelhos e enfrentar uns empurrões pra pegar o trem lotado e sem ventilação? E se fosse bem no horário de pico na estação da Luz? E imaginem se depois de finalmente chegar em casa às 20h, ainda tivesse que lavar a louça do jantar ouvindo sobre a reforma da previdência no Jornal Nacional. De repente ela olha para o calendário e descobre que hoje ainda é quarta-feira! Amanhã precisará sair às 6h da madrugada pra trabalhar porque os boletos não se pagam sozinhos, e já está perto do dia 5. Não tem paz interior que sobreviva a isso, certo? Errado!

A ideia de que precisamos de um lugar e condições especiais para começar a praticar é um equívoco muito comum.

É como se precisássemos estar sempre num outro lugar. Menos barulho, menos trânsito, outro tipo de corpo, de preferência mais magro e flexível. Ou outro trabalho, de preferência professor de yoga ou terapeuta holístico. Enquanto nenhuma dessas situações acontecem, a gente vai adiando, adiando, adiando… Ocasionalmente lendo algo sobre meditação no horário de almoço, ou assistindo palestras motivacionais no aplicativo do Youtube. E assim, esperando pelo dia que tudo vai se ajustar e eu finalmente poderei parar em silêncio.

Ou pode ser que essa moça more em Florianópolis e esteja sentada no jardim do condomínio de frente para praia do Jurerê Internacional. Assim, por um mérito pessoal, ela tem tempo e recurso disponível para participar de diversos retiros e rituais. Finalmente agora vai encontrar sua verdadeira essência e se conectar com a deusa ancestral.
No entanto, ela também faz terapia floral, thethahealing, estuda fadas e anjos e participa de encontros de ufologia às sextas-feiras no Campeche.

Além disso, enquanto participa de práticas de recitação de mantras no budismo nichiren, recebe iniciações de Tara vermelha no budismo vajrayana. É presidente do comitê intergaláctico de estudos transcendentais sobre cristais de poder. Ao mesmo tempo estuda terapia ayurveda e massagem tântrica. Tem pós graduação em leitura de áurea, formação com o Dr. Lair Ribeiro e toma água com limão todos os dias em jejum. Não ingere glúten, é ativista vegana, lixo zero, sustentável, professora de biodança. É sócia de um estúdio hatha yoga, e enfim, vai na missa aos domingos.

Às vezes, mesmo no caso das pessoas que tem tempo e facilidade de acesso a uma diversidade de práticas e iniciações espirituais, parar em silêncio pode ser desesperador.

Em outras palavras, o risco aqui é de ficarmos também dependentes de muitas situações específicas para estarmos em paz – Temos muitas ideias sobre como o caminho espiritual deveria acontecer. Com efeito, quando nos sentamos, a prática pode parecer tediosa e ineficaz e simplesmente não sabemos identificar o que deu errado.

Meditar é cultivar a simplicidade no meio do que parece complexo.

É encontrar o brilho lúcido e clareza que brotam a partir da prática do largar, do não fazer. É ter a coragem de soltar todas as histórias, conceitos e identidades, mesmo que por alguns minutos. É ter a capacidade de morrer para toda a atividade relacionada a passado, presente e futuro. É descobrir que somente quando se morre para as exigências do ego é que a verdadeira vida acontece.

Por fim, quer você se identifique com uma das descrições, com ambas ou nenhuma, fica a dica: Você não precisa mexer em nada. Comece onde você está. Utilizar a energia da vida complexa que você criou para si mesmo e canalizar isso para um único momento em que você consiga largar totalmente essa complexidade no silêncio que tudo acolhe, isso é meditação.

 

créditos da imagem: Julia Malkova




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Ligia Linhares

Geminiana com Lua em Libra, paulistana vivendo em Floripa. Meu hobbie? Explorar o mundo interno. Me encontrei com a meditação em 2014 e não larguei mais! Tenho praticado e dividido posturas e técnicas que facilitam e conduzem ao calmo repousar e permanecer. Me encontre no Instagram @ligiarlinhares ou por e-mail ligiarlinhares@gmail.com

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