A RAIVA DO PAPA

A RAIVA DO PAPA

UMA REFLEXÃO SOBRE HUMANIDADE E PERDÃO
“Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. Jesus Cristo

1)Tenho meditado sobre o gesto do santo padre. E é claro que fiquei entristecido com a cena ocorrida na praça de São Pedro. Isso contudo, revela de modo contundente minha idealização infantil da pessoa do papa. Vendo-lhe como alguém que não pode sentir raiva.

2)Da mesma forma que nenhum de nós alcançará um estado mental acima das decepções inevitáveis do mundo.
O que significa dizer que por toda vida uma fração infantil de perfeição sempre recairá sobre algum objeto de nossa afeição.
Da mesma forma, jamais nos livraremos da raiva e do comportamento agressivo.

Essa é uma feição de nossa natureza primitiva e, em grande parte, força responsável pelo nosso triunfo sobre a Terra.

3)Jesus Cristo conhecia bem a nossa natureza, por isso jamais exigiu perfeição de nós. Outrossim, esperava que fôssemos capazes de atitudes de sincera reflexão sobre os nossos “maus exemplos”.

4)O Rabi esperava de nós uma capacidade de reflexão que nos levasse a um verdadeiro arrependimento. Sem dúvida, acompanhado de humilde pedido de perdão ao irmão ofendido.

5)Ocorre, que o mundo não ama o amor mas senão o ódio, assim como a discórdia.

Por isso mesmo, valorizará mais a raiva do papa do que o seu pedido de perdão.

6)Imagino que o papa poderia ter mandado buscar aquela mulher pois não seria difícil encontrá-la. E de forma secreta, pedir perdão sem que ninguém soubesse.

Mas ele não fez isso.

Não fez um pedido de perdão às escondidas porque sabe que se tivesse escolhido essa opção o seu orgulho e a sua raiva permaneceriam intactos.

Se o seu mau exemplo foi público, seu bom exemplo deveria ser público também!

Deus o iluminou nesse momento de decisão.

7)Se agisse assim, às escondidas, teria desperdiçado justo a maior riqueza que habita o interior de todo pecado que é a oportunidade que nos oferece de meditar piedosamente sobre nossas erros e buscar o auto-perdão e o perdão, através da confissão ao ofendido do reconhecimento humilde do erro cometido.

7.a)O pecado é uma invenção extraordinária de Deus.

Quando submetemos o pecado ao acurado bisturi psicanalítico descobrimos de que ele é feito de substâncias brutas e inconsciente à espera de uma poderosa consciência capaz de transformar força instintiva em luz de iluminação.

E essa tarefa nós não realizamos sem muitos deslizes ao longo da vida.

8)Deste modo, creio que o papa pediu perdão da maneira que deveria pedir:

Pediu publicamente, para que o mundo inteiro assistisse ao seu gesto de arrependimento assim como humildade e se reconhecesse nesse gesto.

9)A raiz do mal contida no interior humano não pode ser arrancada.

Misteriosamente ela participa do segredo da criação.

Somos maus, é isso que somos, mas podemos fazer como o papa fez, reconhecer a nossa própria maldade, reconhecer a sombra, para progredir no nosso aperfeiçoamento espiritual.

9.A)Nossas virtudes não nos levam a nenhum lugar. Levam tão somente na direção de um tipo de vaidade secreta onde nos imaginamos humildes e certos de que estamos trilhando o caminho que Deus quer que trilhemos.

Devemos esquecer as virtudes, rezar menos, talvez, e viver o cotidiano da vida com todo seu potencial de nos enraivecer mas ao mesmo tempo nos convidar a meditar através da prática, da ação.

10)Quanta diferença entre a atitude de perdão do papa e as típicas atitudes dos “estadistas” que governam o mundo!

Eles praticam o mal sem nenhuma compaixão, sem nenhuma cerimônia, não perdoam ninguém. Tampouco reconhecem seus erros. Exortam a massa inconsciente a ser violenta e, cheios de soberbas. Se acreditam os donos da razão.

11)Eles odeiam tudo que escapa aos seus mundinhos egoísticos e se sentem justificados em odiar aqueles que ousam se opor.

Vivem num mundo de poder onde a palavra perdão não só não existe como também, se existir, é humilhada, silenciada e crucificada para que seja possível manter o frágil equilíbrio delirante onde, enfim, se imaginam donos do mundo, imortais!

12)Mas a atitude de buscar o perdão através do auto-conhecimento assemelha-se ao Cristo ressuscitado:

Perseguido, humilhado, preso, torturado e sentenciado a morte, é justo o estranho conjunto dessas maldades que faz surgir a luz brilhante da verdade.

Como se essa luz só pudesse eclodir não vida humana depois de atravessarmos o pântano fétido de nossa iniquidade existencial.

22.a)Não é estranho que seja assim? Não é estranho que Deus tenha nos feito assim? O que de Deus se revela nessa fisionomia de horror que nos habita? Nada? Seremos tão poderosos quanto Deus?

23)Por outro lado, há tanta beleza dentro de nós!

Não é estranho que seja a simples atitude de olhar os nossos erros perpetrados contra nós mesmos e contra os nossos irmãos, não é estranho que seja a simplicidade desse olhar meditativo que nos abre o chacra de nossa consciência?

24)O problema nunca foi a maldade humana porque não existe possibilidade de não sermos maus!

O problema sempre foi a maldade não meditada. É a ausência da meditação que destrói as nossas melhores chances de sermos melhores.

25)Mas é justo sobre esse assassinato da verdade que o perdão triunfa com toda a sua capacidade de compreender a patética estreiteza mental típica de todo ser humano.

26)Portanto, o espanto maior não está no fato de termos assistido a um ataque de raiva do padre Bergoglio pois ataques de raiva todos nós temos toda hora!

O espanto maior está no fato desse homem vir a público e com sincera humildade reconhecer sua grosseria contra uma pessoa humana e pedir o seu perdão.

Eis aí uma humanidade que não vemos no mundo. Eis aí o Rosto de Deus sobre o Rosto do Papa.



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José Raimundo Gomes

J. R.GOMES é psicólogo clínico no Rio de Janeiro. Tem consultório na Tijuca e na Barra. Contato: jrgomespsi@yahoo.com.br / WhatsApp: 21.98753.0356

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