Amar a Si Mesmo

Amar a Si Mesmo

Amar a si mesmo. Eis um conceito delicado, embora absolutamente fundamental. Um sério erro de interpretação do ensino budista é não entender que, quando Buddha expõe a relatividade do Eu – o construto de energias de hábito (Vāsanā) que compõem nossa identidade pessoal – ele não está de fato dizendo que somos nada.

Somos vazios, como todos os fenômenos no universo. Mas, afinal, somos vazios de quê?

Quando Buddha ensina sobre Śūnyatā, o Vazio, ele nos apresenta a maravilhosa dinâmica de interexistência.

Ao expor nossa última condição existencial, o Tathāgata está na verdade reafirmando a riqueza de toda a vida, a maravilha de todos os fenômenos.

Por muitos séculos no ocidente, o budismo foi acusado de ser niilista, e pessimista. A incapacidade de muitos pretensos estudiosos europeus em adentrar nas profundidades lógico-práticas do Dharma de Buddha permitiu que suas limitadas interpretações fossem levadas ao ocidente, e assim também o erro preconceituoso em relação ao que realmente Buddha ensinava.

Mas de fato, Buddha ensinava a verdadeira senda da vida, da felicidade e amor pleno

Ele ensinava a lição de diversidade, e interação viva entre todas as coisas.

Assim, somos vazios porque nossa existência – corporal e mental – só pôde ser possível graças a um conjunto de causas e condições preexistentes. E estas somente existiram devido a outras causas e condições.

Tudo no universo é feito de outras coisas neste mesmo universo. Sem exceção.

Portanto, o Buddha não ensina que somos nada; ele de fato revela a maravilha de sermos parte de tudo. Conteúdo e continente, somos todos feitos de todos os demais – e assim foi no passado; é no presente; e será no futuro.

Então, em que ponto fica a nossa autoestima? Como amar a si mesmo, se esse Eu é um construto de tantas outras coisas? De fato, na prática zen nós aprendemos a amar todos os seres. Quando compreendemos como realmente somos parte de um todo – e o próprio todo em si – nós realmente seremos capazes da amar a nós mesmos sem qualquer vaidade.

O erro na interpretação do sentido da autoestima está na ilusão de que amar a si é adorar nossa identidade, olhar nosso reflexo no espelho e repetir o mantra “sou belo, sou incrível”.

Isso não é autoestima; é mera autoindulgência.

No Dharma de Buddha, nós praticamos para amar e respeitar a vida manifesta em nossa momentânea existência. Olhamos para nós mesmos e vemos, além do Eu transitório, o caleidoscópio de existências que culminam aqui e agora em nossa realidade pessoal.

Se você deseja realmente amar a si, esqueça de si mesmo e veja seus pais, avós, ancestrais na penumbra distante do tempo; veja nuvens, pássaros, formigas e criaturas esquecidas nas vias do passado; veja estrelas, cometas e o próprio universo imenso.

Celebre a linda manifestação de vida que você representa.

E confie. Confie na felicidade, amizade, paz e amor pleno que existem em você. Ame-se, sabendo amar a existência. Apenas assim você realmente aprenderá a valorizar tudo o que já fez, e ainda poderá fazer.

Porque, quando sua identidade deixar de existir, o seu valor humano não será medido por suas opiniões de si mesmo, suas vaidades ou autoindulgências.

Serão suas ações conscientes, maduras, que irão definir quem você é.

E as sementes de amor que você deixar na vida irão semear novas maravilhas para outros olhos, novos aprendizados para outras consciências.

Em nome do Dharma




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Monge Komio

Mestre em Ciência das Artes, Artista Plástico, Escritor, Monge Zen Budista (Templo Daissen-ji / SC). https://www.facebook.com/zenniteroi/

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