Viagem de barco

Viagem de barco

Cada vez que a água batia com mais força no fundo do barco, alguma mulher ou criança gritava Aiiii!! E todos a volta em eco respondiam Êeeeeee! Com isso os minutos passavam devagar, eu sorria, um riso nervoso.

olhava meu salva-vidas cor de laranja, puído, mas todos estavam assim, era isso ou nada.

A minha volta um senhor bem idoso, cerca de oitenta anos talvez, naquela cor azeitona escura, própria dos indígenas. Seguia sereno, como se a tensão reinante não o atingisse, ele usava uma camisa bastante surrada, mas muito limpa e bem passada. O que me fez ficar com vergonha de minha blusa amassada. Reparei que ele segurava uma bengala, segurava com as duas mãos, parecia em transe. Seus cabelos muito negros não combinavam com as rugas profundas de seu rosto, pensei É um caboclo da ilha.

Olhei o celular para ver as horas, já havia 3h que estávamos nessa viagem, não havia sinal de internet,

Isso me aborrecia profundamente, respirei fundo e olhei para o outro lado, havia uns poucos turistas. Deveriam ser turistas, porque eram brancos, muito brancos. Como não poderia ser naquela terra próximo à linha do Equador, onde o Sol batizava todos os seres. Incutia-lhes a tez escura, ou como lá dizem: morena. Esses turistas pareciam entrosados aos nativos, um ar de amizade, cumplicidade, reinava ali, os homens brancos usavam chapéus e óculos de sol. O que lhes impunham uma diferença a mais entre os nortista, que corajosamente não se protegiam dos raios solares perigosos. Especialmente naquela época do ano, novembro, quando a temperatura chega a 40° e as águas se revoltam.

Aiiiiiiiiiiii, Êeeeeeee, e uma onda mais atrevida entrou no barco,

o grupo, surpreendido, não teve tempo de escapar e as águas atingiram quase todos, um rebuliço, chapéus e óculos voaram. No susto uma das mulheres correu, escorregou e só não caiu porque o senhor, ao meu lado, levantou sua bengala e a sustentou. Fiquei admirada da força desse homem. Por detrás de mim, um turista abaixava-se em busca de seus óculos por baixo dos bancos do barco, foi um bafafá. Raimundo me ajude, nem precisava pedir cerca de seis nativos já se debruçavam em busca de encontrar o objeto perdido. No meio de tudo um pequeno garoto da ilha chorava de medo, assustado com tudo que assistia. Sua mãe lhe manda se calar e prometia doces ao fim da viagem, mas o menino não se calava.

Seu choro, de alguma forma sentido e triste, deixou todos com uma angústia no peito, até se esqueceram dos malditos óculos.

A mãe era uma imagem de Iracema, com seus cabelos longos como a folha da palmeira, olhava para os homens com uma certa apreensão. Pois sabia que seu filho incomodava a viagem. Aquele colorido e quente barco parecia mais tenso com aquele choro e as pessoas molhadas. nesse instante, algumas pessoas passaram a olhar e apontar para fora do barco.
os turistas se alvoraçaram, eu, curiosa, fui também olhar.

surge no meio do nada, no meio das águas daquele imenso rio escuro, surge um verde,

Eram as belezas da Amazônia, a ilha tomava corpo e já se vislumbravam as pessoas dali acenando para nós. Alguns com seus cavalos, esperavam para fazer os carretos. Outros nos seus barcos de pesca, limpavam e os arrumavam para a próxima pescaria. Os currais estavam submersos, só se viam as pontas. Era tudo muito colorido, como uma pintura, num fundo verde e o chão branco da areia da praia.

Nesse momento todos já estavam em pé dentro do barco, ansiosos por saírem de lá e pisarem na fofa areia.

Mas o comandante, um nativo com cara de bravo, pedia aos gritos, que se sentasse para poder atracar o barco. Pedido em vão, ninguém lhe obedecia, nem os turistas que tiravam fotos daquele cenário fabuloso.
Na hora em que o barco conseguiu parar, deu um solavanco de novo um Aiiiiiiii, seguido por Êeeeee se ouviu. Vários homens puxavam as cordas para o desembarque, todos muito fortes e morenos, como lutadores de academia.

Era um momento de princesa, eu seguia pegando a mão de cada um até poder chegar na pista final,o trapiche,

As mulheres seguiam dessa forma, enquanto os homens não aceitavam aquela bela ajuda, nem mesmo meu vizinho do lado. Que preferia segurar-se em sua bengala a pegar a mão dos nativos. As mulheres balançavam a cabeça em desaprovação, mas seguiam rindo e feliz por terem chegado sãs e salvas ao destino.

Segui com minha mochila sozinha, já sabia meu caminho,

Na minha frente os turistas foram recepcionados por uma carroça de um hotel, seguiram seu caminho rapidamente. A mãe e a criança andavam ao meu lado, ofereci ajuda com as sacolas, mas a mãe agradeceu. Disse que estava acostumada a carregar peso, o garoto voltou a chorar, sem ser atendido. Era dureza a vida de uma criança na Amazônia. Atrás de mim, o senhor com sua bengala caminhava calmamente, apesar do calor insuportável.

Notei sua companhia, uma jovem, que aparentava ter uns 16 anos, pensei que fossem avô e neta.

Mas em menos de dois minutos mudei de ideia, pois o senhor a beijou na boca. Enquanto a beijava, sua mão desceu até o quadril da garota e lhe deu um leve tapa. No que ela lhe respondeu com um empurrão, assim foram caminhando, sem se importar com os olhares dos homens que por ali passavam. Eu pisei a areia branquinha e fiquei feliz por estar na minha terra.



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Grace Brett

Sou a Grace Brett, apaixonada pela Amazônia. É minha terra, minha gente, lá estudei. Minha formação é Letras, especialista em Língua Portuguesa e Crítica Literária, também em Estudos Culturais da Amazônia. Trabalhei 22 anos como professora, gosto de pessoas, amo escrever e ler. Atualmente moro no RJ, onde estudo Astrologia e Tarot, já atendo, sempre ensinando, sempre aprendendo. página Magia dos Astros no Facebook e Instagram Whatsapp 21 983665227 email gracesampa@hotmail.com

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