Lélia Gonzalez

Lélia Gonzalez

Filha de um operário e de uma empregada doméstica, Lélia de Almeida nasceu na cidade de Belo Horizonte/Minas Gerais, em 1º de fevereiro de 1935. muda-se com toda família em 1942 para o Rio de Janeiro. Fez graduação em História e Filosofia, mestrado em Comunicação e doutorado em Antropologia Social. No doutorado se especializou em antropologia política dedicando sua pesquisa em gênero e etnia. Apesar das dificuldades, em 1954, Lélia Gonzalez concluiu o Ensino Médio no Colégio Pedro II, tradicional instituição de ensino carioca. Quatro anos depois, graduou-se em História e Geografia.

Se liga – O sobrenome Gonzalez foi herdado do espanhol Luiz Carlos Gonzalez, com quem se casou no final da década de 1960

Em 1962, tornou-se bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual da Guanabara, atual UERJ. Como professora universitária, lecionou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Gama Filho, também na capital fluminense (VIANA, 2006, p. 49).

No Movimento Negro, Lélia chamou atenção para o sexismo, que muitas vezes impunha ao segmento feminino contínuos processos de silenciamento. Nas palavras de Lélia, “os companheiros de movimento reproduzem as práticas sexistas do patriarcado dominante e tratam de excluir-nos dos espaços de decisão” (GONZALEZ, 2018, p. 315).
Foi justamente a dificuldade de falar e de serem ouvidas que fez com que militantes negras percebessem a necessidade de participar de maneira efetiva do movimento feminista. Contudo, nesses espaços, elas também encontraram inúmeros desafios, como a omissão do racismo e de suas consequências na vida das “mulheres de cor”. De acordo com Lélia Gonzalez, a “cosmovisão eurocêntrica e o neocolonialismo” (GONZALEZ, 2018, p. 309) das ativistas brancas impediam debates e proposições que desaguassem em medidas efetivas para o enfrentamento da condição de exclusão e subalternidade na qual as mulheres afro-brasileiras se encontravam.
Nesse sentido, Lélia Gonzalez foi pioneira ao questionar o caráter classista e racista do feminismo hegemônico, cujas ações negligenciavam as demandas e especificidades das afrodescendentes. Influenciada pelas ideias do psiquiatra martinicano Frantz Fanon, Lélia defendia a descolonização do feminismo e, consequentemente, a fundação de um “Feminismo Afrolatinoamericano”, protagonizado por negras e indígenas. A militante do Movimento Negro e de Mulheres afirmava que
Apesar das poucas e honrosas exceções para entender a situação da mulher negra […], poderíamos dizer que a dependência cultural é uma das características do movimento de mulheres em nosso país. As intelectuais e ativistas tendem a reproduzir a postura do feminismo europeu e norte-americano ao minimizar, ou até mesmo deixar de reconhecer, a especificidade da natureza da experiência do patriarcalismo por parte de mulheres negras, indígenas e de países antes colonizados (GONZALEZ, 2008, p. 36)
A filósofa estadunidense Angela Davis, ao visitar o Brasil em 2019, afirmou que os brasileiros precisam reconhecer mais a sua própria pensadora Lélia Gonzalez, uma das pioneiras nas discussões sobre a relação entre gênero, classe e raça no mundo. “Por que vocês precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo”, resumiu Angela Davis. Entre outras homenagens, Lélia Gonzalez tornou-se nome de uma escola pública estadual no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro, de um centro de referência de cultura negra, em Goiânia, de um coletivo de alunos do curso de Relações Internacionais da USP, de uma cooperativa cultural, em Aracaju. Foi citada pelo bloco afro Ilê Aiyê em duas edições do Carnaval baiano: em 1997, como parte do enredo Pérolas negras do saber, e em 1998, com Candaces.

O dramaturgo Márcio Meirelles escreveu e encenou em 2003 a peça teatral Candaces – A reconstrução do fogo, baseada em sua obra.
Em 2010, o governo da Bahia criou o Prêmio Lélia Gonzalez, para estimular políticas públicas voltadas para as mulheres nos municípios baianos.

Principais Livros de Lélia
Festas populares no Brasil. Rio de Janeiro, Índex, 1987.
Lugar de negro (com Carlos Hasenbalg). Rio de Janeiro, Marco Zero, 1982. 115p. p. 9-66. (Coleção 2 Pontos, 3.).

Ensaios e artigos de Lélia
“Mulher negra, esse quilombola.” Folha de São Paulo, Folhetim. Domingo 22 de novembro de 1981.
“A mulher negra na sociedade brasileira.” In: LUZ, Madel, T., org. O lugar da mulher; estudos sobre a condição feminina na sociedade atual. Rio de Janeiro, Graal, 1982. 146p. p. 87-106. (Coleção Tendências, 1.).
“Racismo e sexismo na cultura brasileira.” In: SILVA, Luiz Antônio Machado et alii. Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília, ANPOCS, 1983. 303p. p. 223-44. (Ciências Sociais Hoje, 2.).
“O terror nosso de cada dia.” Raça e Classe. (2): 8, ago./set. 1987.
“A categoria político-cultural de americanidade.” Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro (92/93): 69-82, jan./jun. 1988.
“As americanas do Brasil e sua militância.” Maioria Falante. (7): 5, maio/jun. 1988.
“Nanny.” Humanidades, Brasília (17): 23-5, 1988.
“Por um feminismo afrolatinoamericano.” Revista Isis Internacional. (8), out. 1988.
“A importância da organização da mulher negra no processo de transformação social.” Raça e Classe. (5): 2, nov./dez. 1988.
“Uma viagem à Martinica – I.” MNU Jornal.

Uma fro abraço.
Claudia Vitalino
Historiadora – Escritora -Ativista do Movimento Negro – Sindicalista – Roteirista

Fonte:
Nota pública em homenagem à memória de Lélia Gonzales e Abdias do Nascimento»(PDF). Conselho natural de direitos humanos
CARDOSO, Claúdia Pons. Outras falas: feminismos na perspectiva de mulheres negras brasileiras. Tese (Doutorado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012.
DELEUZE, Gilles. Conversações. 1972-1990. Trad. Peter Pal Perlbart. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2013.
GONZALEZ, Lélia. Entrevista. O Pasquim. São Paulo, n. 871, p. 8-10, 1986. Entrevista concedida a Jaguar.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1983.
GONZALEZ, Lélia. Mulher negra. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin (Org.). Guerreiras de natureza: mulher negra, religiosidade e ambiente. São Paulo: Selo Negro, 2008. p. 29-47.
RATTS, Alex & RIOS, Flávia. Lélia Gonzalez. São Paulo: Selo Negro, 2010.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Org). Epistemologias do Sul. São Paulo: Editora Cortez, 2009. p. 23-73
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Claudia vitalino

UNEGRO-União de Negras e Negros Pela Igualdade -Pesquisadora-historiadora CEVENB RJ- Comissão estadual da Verdade da Escravidão Negra do Estado do Rio de Janeiro Comissão Estadual Pequena Africa. Email: claudiamzvittalino@hotmail.com / vitalinoclaudia59@gmail.com

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