Quinhentos anos de perseguição

Quinhentos anos de perseguição

No território em que vivemos, a história atesta, desde que se tem notícia: perseguições, preconceitos, torturas, racismos, dogmatismo e fundamentalismo na gestão pública e privada; demonização e descontextualização de credos; estratégias de imposição hegemônica de uma única matriz; uso da máquina pública para fins religiosos; utilização das religiões para enriquecimento ilício e espúrio. Temos, no mínimo, quinhentos anos de violações à dignidade humana. No que respeita a liberdade de crer e de não crer, o déficit é antigo e permanece aumentando o saldo devedor.
A história da perseguição aos cultos afro no Brasil deixou marcas impressas nas pessoas, na sociedade. Só não as vê, quem não quer, ou quem não tem sensibilidade suficiente para entender a extensão dos danos e do preconceito explícitos. Em termos documentais, esses episódios foram inscritos, principalmente, em registros policiais, reclamações em cartas nos periódicos, discurso de políticos e em relatos e pregações de clérigos. Um dos mais importantes documentos acerca da matéria, foi o recente relatório produzido pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, elaborado pelo Dr. Jaime Mitropoulos, em 2018. Pela primeira vez, uma instituição pública brasileira elenca casos de intolerância religiosa, alerta para o cometimento sistemático de crimes de ódio por motivação de racismo religioso e encaminha providências, de forma legalmente fundamentada. O Relatório foi entregue ao Supremo Tribunal Federal, como Nota Técnica: Livre Exercício dos Cultos e Liturgias das Religiões de Matriz Africana nº 05/2018/PFDC/MPF, quando do julgamento do recurso que versava sobre o sacrifício religioso de animais, servindo de subsídio contra a perseguição aos cultos afro.
Mas a intolerância religiosa não é um problema restrito ao Rio de Janeiro. O Relatório da Procuradoria, citado acima, aponta casos nos Estados do Pará, Amazonas, Recife, Alagoas, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Importante frisar que a intolerância religiosa no Brasil não apenas se espalha. Há aumento estatístico e agravamento em relação aos tipos de violência. É visível recrudescimento. As autoridades permanecem com resistência de identificar, reconhecer e agir. Segmentos extremistas também pressionam contrariamente, atestando seu ímpeto xenófobo. Estes, atuam de forma nítida em prol de um estado teocrático de aparelhamento cristão.
Apenas uma coesa e bem articulada estratégia multidisciplinar poderá modificar o quadro crescente da intolerância religiosa no país. Neste sentido, gestores públicos e sociedade civil precisam estabelecer parcerias conjuntas, agirem em confluência. Cabe às gestões públicas, nas esferas municipal, estadual e federal, efetivarem ações afirmativas e políticas públicas a curto, médio e longo prazo, devidamente organizadas mediante as proposições e necessidades sociais. Entendemos que tais ações, devem abranger a formação, a capacitação e o aperfeiçoamento de estudantes e profissionais de várias áreas, bem assim culminarem com medidas efetivas na administração pública e nos segmentos especializados.
Trecho do Livro: “O Candomblé em Tempos de Crise – Pensando a Religião Antes, Durante e Depois da Pandemia”, de Márcio de Jagun (Arché, 2020).




Outros artigos interessantes deste mesmo autor:

Deixe seu like e siga nossa Rede Social:
0

Marcio Righetti

Márcio de Jagun, Babalorixá, professor de cultura e idioma ioruba na Uerj e na Uff, escritor e advogado. tel.: 99851-6304 (cel/wz) e-mail: ori@ori.net.br Facebook: Márcio de Jagun blog.ori.net.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *