Como os deuses da saúde podem nos ajudar?

Como os deuses da saúde podem nos ajudar?

O Regulador do Universo, além de nos permitir escolher nosso próprio destino e além de nos prover do sagrado livre arbítrio, também nos garantiu forças que nos ajudassem a equilibrar nossa saúde.

Ọ̀sányìn e Ọmọlu são divindades cultuadas no panteão do Candomblé.

São médicos, são expressões da natureza, são emoções com as quais podemos encontrar alento, cura, para os males físicos e emocionais.

A cura aqui, tem um sentido amplo. Curar-se da doença não é somente livrar-se dela. É entendê-la. É saber viver com ela e até morrer com ela, mas sem perder-se por ela.

A magia das folhas é Ọ̀sányìn e Ọ̀sányìn é a magia das folhas.

Todo o complexo de conhecimento sobre os elementos vegetais, seus aspectos metabólicos, seus princípios ativos, suas classificações pelo sexo, pela energia, os mitos usados como metodologias de ensino, os processos de manipulação para a terapia do corpo e do espírito, assim como ritual das ervas, constitui o que denomino de herbologia.

É necessário compreender essa lógica, para entender como e porque o ioruba reconhece a importância do vegetal e o deifica.

Interessante também notar, que esse deus, assim como os outros que ocupam o panteão do Candomblé, não são distantes, inacessíveis. São palpáveis, estão próximos de nós, ao alcance de nossas mãos.

Podemos colher as folhas, rezar por elas, rezar com elas e assim, as transformarmos em remédios para nossos males físicos e espirituais. Bebemos a folha, nos banhamos com ela.

Ọ̀sányìn, a divindade vegetal, entra em nosso corpo, entranha por nossos poros. Limpa nosso organismo, nos ensina a viver com a energia de suas ervas. Ọ̀sányìn é possibilidade de cura, que Deus ofertou a nós.

Os seres humanos então, mesmo errôneos e recalcitrantes, mesmo imersos em um mundo sujeito às pragas, doenças e vicissitudes, tem à disposição um médico, um manancial protetivo e curativo vicejando a seu redor.

Apesar de Ọ̀sányìn ser considerado entre os iorubas como oníṣègùn (o Senhor da arte de curar), outra divindade é responsável pela saúde e pela doença, no panteão do Candomblé: Ọmọlu.

Aqui no Brasil, Ọ̀sányìn teve sua regência restrita aos elementos vegetais, enquanto Ọmọlu passou a ser mais reconhecido como o grande médico.

No Brasil, Ọmọlu e Ọbalúwáiyé são considerados como um mesmo orixá, sendo o primeiro uma versão mais velha, enquanto o segundo sua energia mais jovem.

Ọmọlu e Ọbalúwáiyé, assim como Ọ̀sányìn, estão associados ao elemento terra.

Na versão africana, Ọmọlu e Ọbalúwáiyé possuem regência sobre as doenças de pele e endêmicas, em geral.

De uma forma, ou de outra, as divindades da saúde são invocadas do passado, dançam conosco no presente e, juntos, nos ajudam a enfrentar os desafios do futuro.

Eis nossos deuses, vestidos de palhas, dançando à nossa frente, abraçando a todos. Vindos da morte, ajudam os vivos a seguirem seus passos. Lágrimas e suores se misturam em emocionantes cenas em que o etéreo e o material se encontram.

A saúde e a doença já não importam mais naquele momento. Só a fé, só o contentamento, só a emoção. Atótóo! Obrigado aos deuses por nos acalentarem a dor, os sofrimentos! Que a doença desapareça sob suas palhas sagradas!
Trecho do livro: O Candomblé em Tempos de Crise – pensando a religião antes, durante e depois da pandemia. (RJ: Arché, 2020)




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Marcio Righetti

Márcio de Jagun, Babalorixá, professor de cultura e idioma ioruba na Uerj e na Uff, escritor e advogado. tel.: 99851-6304 (cel/wz) e-mail: ori@ori.net.br Facebook: Márcio de Jagun blog.ori.net.br

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