PESSOA E A VISÃO GNÓSTICA DO TEMPO VI

PESSOA E A VISÃO GNÓSTICA DO TEMPO VI
Armando Nascimento Rosa

Esta saudade dirigida para um pretérito infantil subjectivo povoa densamente a obra pessoana. Paralelamente a essa outra (meta)saudade gnóstica pelo Cais Absoluto e arquetípico, expresso na Ode Marítima.
Visto que foi de onde o ser partiu antes desta irreal navegação pela temporalidade.
A insistência com que o sujeito poético evoca o som do sino antigo da sua aldeia urbana. Ou o tempo em que festejavam o dia dos seus anos, transfigura esta saudade impossível de confortar, a não ser pelo testemunho artístico que finge a verdade que a motiva.

Há nela uma intensidade e dor inapeláveis diante do vazio do seu presente.

E isso que é um fruto letal da sua consciente lucidez. Há nela uma intensidade e dor inapeláveis diante do vazio do seu presente que é um fruto letal da sua consciente lucidez. Como o analisou com argúcia antes de muitos Natália Correia (em ensaio de 1957: Poesia de Arte e Realismo Poético)

O horizonte da poesia pessoana é o da liberadora chama gnóstica

Aquela em que «o lume subversivo que o poeta trazia na ponta da espada» quebra as categorias ilusórias do real convencionado (real este que se compraz em ver-se traduzido esteticamente na modalidade menor que a autora designa por poesia de arte). A fim de se dirigir ao domínio arquetípico do imaginário activo/alquímico (ou seja, a esfera de onde brotará um genuíno realismo poético, segundo Natália).

«O que há de mais profundo e oculto na poesia de Fernando Pessoa é esta chama alimentada pela esperança da liberdade cósmica. O negativismo com que o estigmatiza a higiene dos prosélitos da poesia de arte não é uma derrota psicológica. É uma conquista que lhe permite sair das categorias do imediato para lançar uma ponte entre o real e o imaginário.» 35

E se a gnose é conhecimento, o fáustico Pessoa vê nesse conhecer uma dádiva pandoriana

Aquela cuja a alma trouxe para a vida penhorando irremediavelmente, por tê-la obtido, a experiência, agora desfeita, da sua felicidade.
Porque a felicidade para ocorrer em vida tem de estar invariavelmente acompanhada de uma ignorância instintiva que frui o mundo sem o questionar.

Acossado pelo negrume absoluto e pela percepção de que o inferno se situa aqui, neste mundo onde vivemos. Como em vários lugares o afirma, Pessoa participa das mais sombrias perspectivas que a multiforme tradição do gnosticismo ousou engendrar.

O archote do hermetismo segui-lo-á então de longe apenas, nessas áleas desoladas e mortíferas. Mais afins de uma (quasi)gnose de radical desventurança terrena, professada menos por Mani que por Marcião.

Nesses píncaros intoleráveis de onde só o nada a vista alcança, Pessoa vê o tempo representado como uma alienígena presença opressiva. Pois a tudo impregna, mas que o pensamento não conseguirá jamais digerir, por não lhe pertencer inteiramente.
Mesmo que intente captar-lhe o seu propósito – seja no domínio conceitual e amplo, seja no tempo particular e subjectivo que daquele descende.

É à persona translúcida de Bernardo Soares que Pessoa reserva as palavras de um desesperançado diagnóstico

Nesse perspectiva sobre o sentido do tempo nos seus modos de ser, todos estes se acabando por entrosar numa figura personificada e nadificante. Essa figura aos poucos simplesmente nos mata. Numa linha de expressão análoga do verso de Campos que é, para Eduardo Lourenço, «a mais profunda e a mais dolorosa metáfora do tempo: “o nada vivo em que estamos”.» 36

«Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez prolongadamente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.

Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma moldura para enquadrar o que lhe é estranho. (…)

Que coisa, porém, é esta que nos mede sem medida e nos mata sem ser? E é nestes momentos, em que nem sei se o tempo existe, que o sinto como uma pessoa, e tenho vontade de dormir.» 37

Num outro apontamento solto, vindo a público mais recentemente, o poeta cogitador pergunta-se acerca do que é o tempo. Isso depois de lhe identificar três dimensões: a duração, a direcção e a mudança. Esta última parece ser a dimensão que mais lhe interessa, quando aplica o princípio da identidade. Esse sentido afirma que as coisas existentes diferem de si mesmas em virtude do regime imposto pelo tempo. Essa anotação bilingue anglo-lusa de que citamos um excerto originalmente escrito em inglês:

«Será o tempo coexistência? Então, enquanto uma coisa dura coexiste consigo própria? Mas porque não há dois coexistentes iguais, um coexistente não é igual a si próprio se coexistir consigo próprio; daí a mudança.» 38

Este problema da coexistência da diferença díspar num só sujeito é assunto pessoano.

O qual se materializa no seu estatuto de artista do pensamento e da palavra.
Guiado pela pulsão literária, a sua inata vocação mimética combina-se com a imposição autoral da diferenciação. Pois tudo o que coexiste no tempo faz com que as coisas tenham de diferir entre si. E em si mesmas também porque mudam.
Na ânsia da mudança que é diferença, Pessoa ensaia instalar-se nas perspectivas daqueles que o obcecam. Tanto pelo reconhecimento e admiração como pelo sentimento competitivo provocado por tais rivais eleitos de uma escassa plêiade.

Essa mimésis denegadora pretende ser também uma dialéctica superação

Como nos casos em que Pessoa responde à genialidade do drama shakespeareano – como atrás o mencionáramos -, transformando-se ele próprio, sacrificialmente. No palco para o metadrama heteronímico, ou, depois de anunciar a vinda de um super-Camões.

Assim como o facto de empreender um duelo simbólico com o Camões épico, através da composição de Mensagem.

Literária e filosoficamente, muitos outros exemplos se podem encontrar de confronto diversamente titânico. Um deles é com Goethe, através da tragédia subjectiva do seu Fausto inconcluído. Outro é com Whitman, por meio das grandes odes de Campos. Também com Nietzsche, por via não só do neo-paganismo.

Teorizado pelo heterónimo filosófico António Mora (que a investigação de Luís Filipe B. Teixeira tem privilegiado). Mas também por meio desta mesma gnose luciferina em cujo encalço aqui seguimos.
Com Maeterlinck e António Patrício, pelo drama O Marinheiro, publicado em 1915 (tão estático quanto gnóstico.
Senão, compare-se o conto do marinheiro naufragado numa ilha estranha, que nomeia a peça, narrado pela Segunda Veladora. Cujo o alegórico Hino da Pérola da tradição gnóstica, atribuído a Bardesanes).

Com Pascoaes – esse gnóstico sui generis da razão romântica na literatura e no pensamento portugueses -. Mercê de um visionarismo transcendental da poesia ortónima e do seu reverso no panteísmo disfarçado de Caeiro.
Mas nenhum desafio parece mais temerário do que aquele em que Pessoa ultrapassa o ágon poético e o território humano do Job sofredor. Citado por Bernardo Soares na frase: minha alma está cansada de minha vida. Para se colocar, em cenografia esotérica, mimando a acção de Deus. Em poema ortónimo de dois versos, com data de 1930, o poeta sentencia e interroga-se em seguida:

«Deus não tem unidade,
Como a terei eu?» 39

À imagem de uma divindade pluralizante, Pessoa opera a taumaturgia heteronímica numa dissociação mistérica do eu

Dessa forma é melhor compreendida se lermos uma passagem versando a possibilidade de o espírito humano experimentar aquilo que o autor chama a União com Deus. Extraída do seu fragmentário Ensaio sobre a Iniciação, composto em inglês.

Embora em outros locais, o poeta realce o carácter intelectivo e, portanto, não propriamente místico da gnose. Este é um aspecto em que Pessoa vacila e, como é seu hábito programático, objectivamente se contradiz. Já que do termo união se infere uma experiência de tipo místico.

Mas de resto, esta antinomia entre a cognição intelectiva e a experiência mística é um dos aspectos de maior indecidibilidade.

No caso se tentarmos integrar a visão gnóstica em uma ou outra destas polaridades, em exclusivo.
Ela não se submete à aplicação estrita do princípio da não contradição numa análise dicotómica.

Pois se é certo que a gnose chega mesmo a participar de um registo raciocinante lógico e discursivo. Sendo em objectividade sobre o mundo empírico (veja-se a sua abordagem ao problema do mal e da imperfeição cósmicos).
Não é despiciendo sublinhar a dimensão mística (e não apenas psicomítica) que ela mobiliza.
Se bem que seja um misticismo desencarnado, nostálgico ou depressivo. Também perseverante na captação intuitiva dos laços unitivos entre a centelha nossa obnibulada e esse Deus autêntico mas remoto.

De salientar, no extracto que escolhemos, a vontade pessoana em evitar uma forma verbal.

O que pressuporia logo o conceito de tempo no acto da criação divina.
Trata-se, todavia, de uma vontade não correspondida pela exposição laboriosa e escarpada por ele feita. Já que a linguagem o trai porque se dá como duração ao nosso entendimento.

E aqui está ela empenhada na procura em recuar ritual e demiurgicamente ao tempo das origens. Ou seja, o momento de criação da multiplicidade das chamas espirituais. Responsáveis pelo surgimento do género humano, uma vez pulverizadas no mundo da matéria física.

«É difícil, evidentemente, compreender o que significa União com Deus, mas é possível dar alguma ideia do sentido que tal é suposto ter.

Mas assumamos (pondo de lado a falsidade de usar um termo verbal, isto é, algo que implica tempo), assumamos que, qualquer que tenha sido a maneira como Deus criou o mundo, a substância dessa criação foi a conversão por Deus da sua própria consciência nas consciências plurais dos seres separados. O grande grito da Divindade Indiana ‘Oh, que eu seja muitos!’ dá a ideia sem a ideia de realidade. (…)

O Adepto, se conseguir unir a sua consciência à consciência de todas as coisas, se conseguir torná-la numa inconsciência (ou numa inconsciência de si próprio) que é consciente

repete dentro de si o Acto Divino, que é a conversão da consciência individual na consciência plural de Deus em indivíduos. Mas, ao mesmo tempo, ele consegue assim regressar à pluralidade obtida por Deus ao fazer o todo de que ele próprio participe, e, ao repetir o Acto de Deus, está na realidade a invertê-lo, e, ao invertê-lo, a voltar atrás no caminho para Deus, assim atingindo a União com Deus.» 40

Mas estas convicções arrebatadoras de mago orgulhoso, porventura contagiadas por leituras alheias feitas pelo poeta-ocultista 41, são fogos-fátuos que se extinguem

Após a embriaguez psíquica da consciência ter julgado aproximar-se de uma qualquer ficção de Deus por si gerada. Até porque, anota-o Pessoa, os caminhos místico e mágico estão sujeitos a uma infinidade de erros e ilusões (o perigo do místico seria o mundo, a sua absorção desindividuada na imanência dele.

Enquanto o perigo para a via mágica seria a carne, ser-se tiranizado pela obsessão em saciar as suas pulsões) que só a gnose pode ultrapassar visto que a sua acção se situa na busca em transcender o intelecto comum por uma espiritualidade superior mais penetrante. Se bem que haja um perigo também a espreitar a armadilhada via gnóstica.

Segundo o adverte Pessoa mais do que uma vez, e é ele a faustiana ameaça do adversário tentador.

O Diabo (e recorde-se que o Diabo é uma figura caracterizada como o príncipe deste mundo, no Novo Testamento.
Razão para que Satanás apareça identificado com o demiurgo controlador do cosmos físico, na exegese feita pelas manifestações medievais de gnosticismo neomaniqueu.
Desde a sua primeira irrupção com o priscilianismo, no séc. IV D.C., num espaço que viria a ser geograficamente português. Até à «Renascença gnóstica» 42, como lhe chamou Jung, ocorrida nos primeiros séculos do segundo milénio. Que viu florescer e dizimar os movimentos heréticos albigense e bogomilo).

São, assim, bem mais comuns, na escrita pessoana, os sinais das cinzas resultantes desses fogos alucinatórios.

Reconhecemos os traços de um pensamento de desespero vivido em estóica soberania, quando Pessoa identifica a vida com o fogo e não com a luz, e por isso a temporalidade da existência aparecer como uma eternidade de incerteza enquanto dura, um tempo presidido pelo nada e pela desrazão. São três frases únicas, redigidas em inglês, incluídas na compilação dos seus Textos Filosóficos:

«Life is not of the nature of light but of the nature of fire.
Life, the eternal agony of suspense, a horrible nothing.
A feeling that is madness of thought.» 43

O sentimento da vida como loucura do pensamento alia-se ao sentido de um abismo essencial,

de uma espécie de fractura gnóstica do ser que faz imergir o humano no tempo que o aliena.
O abismo ontológico que é, por implicação, uma impossibilidade gnoseológica pela qual a vida narcotiza a entidade pensante do sujeito interior.
Na nómada sageza de uma das suas exegeses pessoanas, Eduardo Lourenço apontara-nos precisamente o ponto de conexão que articula a concepção negativa da temporalidade humana com a visão gnóstica de Deus segundo Pessoa.

«É na poesia mais explicitamente religiosa de Pessoa – em particular na de signo ocultista – que se revela com mais força o seu sentimento de absurdidade original e da insubsistência do tempo humano. O espelhismo conatural à consciência perpetua-se igualmente nessa sua visão da transcendência. O Deus invocado é não só uma forma de ausência, mas abissal ausência de ser, novo avatar do Abismo dos Gnósticos:

“Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adão Supremo também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador

Foi criado e a Verdade Lhe morreu…”» 44

O ensaísta retirou estes versos do primeiro de um ciclo de três sonetos cujo título e epígrafe nos transporta para átrios esotéricos.No Túmulo de Christian Rosencreutz (1935).

Em poesia Pessoa aí evoca a condição de um Deus enfraquecido que nos terá criado

Mas a quem o Abismo metafísico veda a obtenção da verdade. E embora seja o mundo o corpo de tal Deus menorizado, como corpo que é, não possui conhecimento de si. Esse Deus, chamado por Pessoa Adão Supremo, é por sua vez Homem para outro Deus superior a Ele, instaurando um jogo de mise-en-abîme genesíaco, que nos distancia irreparavelmente da fonte original do Ser.

A consciência gnóstico consiste antes de mais no reconhecimento de uma ausência e de uma distância. Que dinamiza o viajante espírito humano a sondar avidamente, num labirinto de Morfeu, a sua autêntica origem. Essa distância é agravada pelo decurso do tempo existencial e cósmico.

Pela simbologia mitológica, Cronos, personificação do tempo, figura a dilatação desse exílio. Na medida em que é aquele que devora sem cessar os seus próprios filhos; num dos seus escritos hierológicos, Pessoa identifica mesmo Cronos/Saturno com o Diabo e a limitação, isto é, com o mal, e portanto com o que nos priva de ser o que plenamente somos.

A fábula de Cronos tem, no entanto, peripécias posteriores como todos o sabemos, pois ele acabará por ter de vomitar inteiros e incólumes todos os filhos divinos que ingeriu.

A esperança gnóstica também perfilha essa vitória prometida aos que, engolidos hoje pelo túnel da temporalidade, serão a ele subtraídos quando atingirem o estado de existência espiritual em que o tempo é anulado, desmascarando-se então o estatuto ilusório do tempo, que outorgava consistência ao universo físico.

Mas a salvação gnóstica, por não depender da adopção de dogmas rígidos, nem convencionais nem tranquilizantes, é uma doutrina elitista. Que faz recair o porvir do sujeito sobre o caminho que este mesmo abrir na fracção cronológica de cada vida. De acordo com o que o seu olhar interior nela descobre de irrisório e deficitário.
Herança do pugilato agónico dos gregos, que a igualitarização cristã adoça e atenua. É a feição aristocrática da gnóstica heresia que vinca estas palavras heróicas de Pessoa.

«Para ser imortal a alma tem que fazer degrau do corpo, (cada qual tem de fazer de si próprio, degrau para uma maior altura em si mesmo). (…)

Não são imortais todos os homens. A imortalidade tem a sua aristocracia.

Ser homem não traz ser imortal: Torna possível sê-lo. Mas para ser imortal é preciso viver entregue ao que tenha em si a imortalidade. (…)

Ser mortal é pertencer à vida, que é das coisas que mudam; ao espaço que é de seres que se transformam; ao tempo, que é de momentos que passam. Para ser imortal pertencer a onde não haja vidas, nem tempo, nem espaços. Para ser imortal é preciso pertencer a mais do que a vida.

A vida é a morte vivida, vida vivida só a imortalidade.» 45

Forçoso é reconhecer, que a despeito das máscaras atrás das quais se fingiu ocultar – melhor será dizer graças a elas -,

Estas endereçadas tanto a si como a outros que as compreenderem. Ao fazer da sua vida degrau para um além da sua individualidade mortal, constituindo a sua obra a marca legível de uma infinitude ambicionada.

Na estrutura dispersa mas vertebrada dessa mesma obra, cuja complexa riqueza não cessa de espantar-nos. Pessoa exibe um importante carácter gnóstico que designaremos por condição teatral ou dramatúrgica do humano.
Já aqui sublinhámos que a hierologia gnóstica, isto é, a filosofia que se prende com esta rebelde e individualista religiosidade, baseia-se na crença em uma entidade espiritual que reside no mais íntimo reduto de nós próprios.

No entanto, esse deus interior, submetido à punição do ciclo das encarnações, é peregrino sob diferentes trajes físicos. Conforme a individuação humana que lhe couber por sorte na cósmica lotaria.
A nossa condição pessoal é mesmo a de sermos máscaras, e, de acordo com os versos de Campos, a de termos a máscara colada à cara do espírito.

Aquilo que nos faz reconhecer conscientes de nós mesmos em cada uma das jornadas do existir é essa máscara corporal, psicofísica, enganosa mas auto-identificadora do tempo de uma vida.

Soaria portanto bem profunda para Pessoa a concepção shakespeareana da vida como palco

Ocupado por humanos actores que, por sua vez segundo a gnose, são as personagens efémeras das divinas centelhas em trânsito pela cena terrestre. O drama-em-gente desenrolar-se-á por isso sobre uma visão gnóstica do tempo da acção.

Esse tempo é o da sua própria vida divisível, já que Pessoa, ao invés de inventar personagens exteriores e neutralizadas em relação a si – como é típico do dramaturgo -, transforma-se nelas, numa espécie de possessão com algo de xamânico; tentando, no jogo supremo dos paradoxos, desmascarar o eu oculto mascarando-se metodicamente.

Encenador da sua multidão privada, é como se Pessoa justificasse, a partir dela, a espantosa doutrina que diz ter cada ser humano uma pluralidade heterogénea de almas, de faúlhas várias do fogo de Deus derramado no início dos tempos; tese defendida por Isaac Luria, judeu gnóstico do Renascimento, nomeado no título de um dos poemas iniciáticos de Pessoa. 46

Em Pessoa, muitas são as caracterizações do tempo humano

avaliado ao modo de um teatro metafísico, em que actores não somos, senão na ilusão de sê-lo, mas sim marionetas tentando entrever, como Hamlet, os invisíveis fios que as movem.

«Todo este mundo quotidiano e visível, toda esta gente que boia à superfície da vida, todas estas coisas que constituem os nomes e os feitos da história não são mais que erro e ilusão. Somos todos, não agentes, senão agidos-títeres de maiores que nós.

Todo o nosso orgulho de conscientes e a nossa soberba de racionais são o títere que se orgulha de seus gestos. Na verdade o combate é aqui, mas não é nosso; não é connosco, somos nós. Não somos actores de um drama: somos o próprio drama – a antestreia, os gestos, os cenários. Nada se passa connosco: nós é que somos o que se passa.» 46

continua



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