A liberdade de Buddha, a liberdade de qualquer um.

A liberdade de Buddha, a liberdade de qualquer um.

O que faz uma religião ser uma fonte de apoio e inspiração? Sua liturgia, seus deuses? Seus dogmas, suas afirmações definitivas?

Seriam seus demônios? Suas sentenças de culpa, pecado e expiação?

Seus paraísos, seus infernos?

Talvez seus templos imponentes, suas estátuas divinas, seu poder temporal adquirido e espiritual alegado?

Nada mais difícil do que definir o sentido real de uma religião.

Sua natureza é sempre restrita aos elementos ortodoxos assentados ao longo de décadas, séculos, milênios.

A antiguidade de uma religião é sinônimo de uma filosofia suficientemente ampla e bem organizada, plena de seus aspectos burocráticos e dogmáticos, em cujas fontes bebem os homens e mulheres que, no afã de manter esta estrutura de apelo transcendente, optam pelo único meio não perigoso, concreto e principalmente prático e pragmático de perpetuação de uma fé: o Conservadorismo. Mas essa fonte, na verdade, não mata a sede da Alma…

Por vezes eu vejo a Tradição.

Esta sim sinônimo de belas coisas mantidas firmes a partir de profunda sabedoria.

Mas não confundam tradição com conservadorismo; não imaginem que a conservação cega e sectária de mitos e símbolos vem a nos dar o direito de chamarmos tal ato de Tradição.

Nem mesmo pensem que os objetos, nomes e construções feitos, mantidos e preservados ao longo de milênios são em última análise marcos seguros de que ali está sendo preservada uma tradição: pois os objetos e coisas nada mais são do que matéria.

E a matéria é a primeira a se esvanecer ao contato com a vida.

Uma vez que é a Vida que delimita nossa real natureza espiritual, é na manutenção, respeito e preservação da vida que nós vamos encontrar a Religião e sua Tradição.

No momento em que um ser, um único ser, despojado de quaisquer aspectos sectários, restritivos e castradores, se mantém afinado com seu esforço de aprofundamento espiritual, este único ser é suficiente para apontarmos e dizer:

aí está a Tradição sendo preservada por um religioso.

E ela, a Tradição, está lá: eu posso vê-la no semblante daquele ser.

Ela está nos seus atos de superação, sem extremos martirizantes; sua mente reflexiva, sem extremos intelectuais; sua prática auto-organizada, sem extremos disciplinadores; seu discernimento sutilmente ampliado, sem extremos parciais.

Quando eu busco ver a Tradição buddhista, busco ver a Buddha.

E para ver a Buddha, preciso ver a mim mesmo.

E para ver a mim mesmo, eu devo surpreender a mim mesmo, e afastar-me de mim.

Porque eu não estou em minha concepção pessoal, em minha ideia de mim.

Eu estou em meu cerne, no centro, no ponto em que a minha mente é capaz de sentir a vida.

Exatamente aí, neste ponto, está a essência do exemplo de Gautama Buddha.

Buddha, como Ser, buscou tal tradição. E a encontrou aonde ela realmente está: em si mesmo.

Buddha não era buddhista; Buddha não era um conservador. Mas Buddha preservava algo: ele preservou a Tradição.

Uma Tradição que viceja longe dos métodos ortodoxos, e das rusgas intelectuais. Uma Tradição longe da tradição…

Como devo eu ver a Buddha? Certamente como um homem, pois assim ele era.

Se não o fosse, qual sua serventia para os homens?

Fosse Buddha um Deus, estaria fora de alcance, pois deuses estão além dos homens; fosse Gautama um ser divino, estaria fora de alcance, pois os divinos são perfeitos, e portanto não são homens; fosse Buddha um privilegiado, estaria fora de alcance, pois os privilegiados são notoriamente intocáveis pelos comuns.

Buddha foi simplesmente (e plenamente), como ele mesmo afirmava, um daqueles que Despertaram.

Eu falo do Buddha como homem, pois nesta condição ele tem minha admiração.

Suas dúvidas, seus erros, sua superação. Tais momentos são valiosos pois demonstram a verdadeira face do que é o buddhismo: uma busca.

Mesmo sendo uma religião, mesmo possuindo tudo aquilo que é típico de uma simples religião, o buddhismo possui a Tradição em seus ossos.

E escavando diligentemente, com a pá do Zen, no corpo inerte do buddhismo, eu encontro tais ossos, relíquias de Buddha.

Essa pá pode ser feita de Zen, Theravada, Shin, Tantrismo Tibetano, escola Mahayana, Hinayana, ou mesmo de nenhuma linha ou escola buddhista. Ela na verdade só necessita de uma coisa: de coerência, de bom senso.

Mas estaria eu sendo crítico ao buddhismo ao chamar seu corpo “inerte”? De modo nenhum.

Não penso que a estrutura de nenhuma religião seja inútil, mas é certo que por “tradição” devemos entender todo o escopo de conhecimentos que uma religião nos oferece para reflexão e aprofundamento pessoal, e não os elementos culturais e puramente burocráticos com os quais, ao longo do tempo, toda forma religiosa criada pelos homens se veste.

Em suma, o que subjaz as concepções religiosas sadias é o que é valioso para a mente, e este elemento essencial não é a Religião em si, mas Espiritualidade.

No caminho filosófico oriental, entender essa distinção é fundamental.

Se a prática de um indivíduo é realmente direcionada para a sua consciência, nenhuma peça de vestuário, nenhum objeto ritual, nenhum texto escrito, vai fazer por ele o que ele mesmo deve fazer: atingir a outra margem do rio da sabedoria e do equilíbrio.

Entretanto, esta veste, este objeto e este texto são representações importantes e pontos úteis de referência para todo praticante bem orientado e alerta aos obstáculos do Ego.

E ainda que tal distinção seja necessária para que possamos compreender o sentido da prática religiosa oriental, mesmo assim encontraremos nesta os belos, estranhos e admiráveis aspectos materiais de qualquer religião.

E tais aspectos são belos e admiráveis pelo seu papel cultural e histórico, por representar tanto o que há de mais sábio quanto o que há de mais ignorante na natureza humana, no seu esforço de finalmente “construir” um caminho seguro e sem sustos para o “céu”.

A liberdade que Buddha atingiu, sua dádiva de sabedoria, é Vazio (Sunyata).

Mas – poderíamos argumentar – sendo Vazio, como pode ser uma dádiva?

Justamente por representar o despojamento correto e completo dos apegos, aversões e indiferenças que fazem todo Ser sofrer, o Vazio búddhico é a Plenitude (Purnam).

Os paradoxos, embora causem sempre uma certa surpresa em todos nós, são os meios mais possíveis de se verbalizar a experiência espiritual.

Ao se conseguir perceber as Verdades Universais, o Dharma, por trás dos paradoxos da existência, o praticante atinge o sentido do Tathagata, as verdades que compõe esta personalidade tão importante na história humana.

E a natureza de Buddha é um exemplo, um parâmetro, um paradigma, de liberdade.

Este paradigma é essencial a Buddha antes mesmo dos aspectos éticos, morais e religiosos criando ao seu redor, em meio ao Sangha.

E o que é esta liberdade?

É a liberdade do sofrimento ignorante, da tola e angustiante tentativa de um indivíduo em encontrar uma felicidade baseada em desejos e projeções lineares.

Pois, como disse Gautama, todas as coisas do Universo são condicionadas, e portanto impermanentes e impessoais.

Uma lição amarga para o Ego, mas plena de esperança e tranqüilidade para o espírito humano.

A liberdade de Buddha é a liberdade de qualquer ser.

Qualquer um pode atingi-la, qualquer um pode entendê-la, qualquer um pode buscá-la.

E a afirmação por parte de Siddharta Gautama desta universalidade de busca em seus atos e palavras é, de tudo o que pode ser valioso na vida humana, o maior de todos os atos de compaixão que um sábio pode oferecer a todos nós.

Pois com esta afirmação Buddha simplifica a busca espiritual àquilo que lhe é essencial: o amor pela vida plena de sentido, liberta da ignorância ilusória dos desejos, e rica em ações equilibradas, palavras equilibradas, pensamentos equilibrados, reflexão equilibrada, discriminação equilibrada, atenção equilibrada, concentração equilibrada e modo de vida equilibrado.




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MeiodoCeu

material originário do antigo site Meio do Céu - Claudia Araujo, hoje denominado Grupo Meio do Céu - Claudia Araujo e composto por diversos novos colunistas. Essa é uma maneira de preservar o material do antigo site, assim como homenagear aqueles que não mais escrevem no site e/ou não mais estão entre nós nesse plano da existência. Claudia Araujo

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