Qual a face de Iemanjá, uma Sereia?

Qual a face de Iemanjá, uma Sereia? Iemanjá é branca, é negra, morena?

A Virgem – No sincretismo católico Iemanjá é representada como a “Grande Mãe”, no Brasil é sincretizada como a Virgem Maria e em Cuba (Santeria) com a Virgen de Regla, a Madonna Negra. Aqui algumas imagens de Cuba.
Yemanjá na Umbanda – O ícone de Yemanja na Umbanda brasileira, encontram-se outras parecidas em muitos websites e publicações. A pintura da direita diz-se remontar aos anos de 1950, que mostra – dependendo da versão da história – uma mulher chamada Dalla Paes Leme, uma branca com características indígenas, ou uma visão europeia de Yemanja. Isto é interessante porque ela era uma mulher rica e influente nos círculos Umbandistas do Brasil da época e esta imagem como a do “verdadeiro Iemanjá” rapidamente se generalizou.
Os primeiros registros literários de seus mitos assim, como de alguns outros orixás, foram prejudicados por diversos equívocos. A. B. Ellis a ela associa uma gênese incestuosa influenciada por P. Baudin e repetida diversas vezes por autores como R. E. Dennett, Stephen Septimus Farrow, Olumide Lucas que influenciados uns pelos outros, e ecoada no Brasil por Artur Ramos e Nina Rodrigues ecoado por P.Verger inicialmente influenciado por tais mitos já alertava que os mesmos não eram mais conhecidos ou possível de se verificar na costa da Africa e posteriormente conclui tratar-se de uma série de equívocos e os rebate duramente em obras posteriores. Essas influências ocidentais imprecisas refutadas por Verger aderiram na interpretação de Iemanjá em sua associação com a gênese do mundo, sendo objeto de estudo assim retomado por diversos autores que vêem em Iemanjá unida a Aganju (apresentado como irmão e marido) e posteriormente violada pelo filhouma síntese da cosmogonia yorubá, passando a figurar como “mãe de todos os orixás” tal como apresentado por Poli ou culminando na visão poética de Prandi com Iemanjá ajudando pessoalmente Olodumaré na construção do mundo
As raízes – Nos mitos da África Ocidental Yemanjá é, assim como Oxum e Iansã, uma Òrìşà dos rios, das águas doces. Ela é principalmente nominada como filha de Olokún, Òrìşà do mar sua imagem é originalmente composta por uma mulher de cor negra, imponente, com os seios a mostra, como que ofertando-os a todos os filhos, amparando-os, e deixando evidente a mãe bondosa que é! Naturalmente que sua representação teve de sofrer alterações para que os cidadãos negros pudessem continuar a cultuá-la. Originalmente Yemanjá não é magra, como no Brasil, mas sim obesa com seios fartos, algumas vezes apenas com um seio. Na cabeça uma Kalebasse. No início do Século XX a mostra Yemanjá amamentando os Ibejis, ela está exposta no Museo Afro Brasil em São Paulo. Em 1971 Abayomi Barber esculpiu “Yemoja”exposta na Galeria Nacional de Arte na Nigéria (NGA). Imagem hoje conhecida com um longo vestido de um tom suave de azul, cobrindo-lhe corpo inteiro, sua cor branca, seus traços angelicais, seus longos cabelos escuros, são adaptações que, “branqueando” esta deusa, significam a resistência dos povos afro-brasileiros, bem como sua genialidade em permanecer prestando homenagens à sua deusa-mãe, sem serem importunados e perseguidos pelos homens brancos, e suas religiões de matriz europeia.
Ialorixá responsável pela parte sagrada do festival, como parte de um trabalho científico intitulado “Yemanjá, uma sereia? O “Mito” Africano no imaginário de pescadores do Rio Vermelho”. Aqui algumas citações: Será que Yemanjá é uma sereia, como aquela da escultura? — Eu acho que sim, porque muitos pescadores que já tiveram visão dela, disseram que ela é assim, branca e com os cabelos bem cumpridos. Mas ela não deixa ninguém chegar perto dela, nem ver seu rosto. O pessoal daqui os mais velhos, diziam que a Mãe d’Água era uma mulher muito bonita, e era vista sentada na pedra, mas, quando notava que era observada, se lançava no mar, deixando um movimento de água ao redor. (Pescador)
Enfim as transformações de Yemanjá ocorrerão da Diáspora Africana para a América do Norte e Sul e para o Caribe. Ela se tornou a mulher, guardiã materna e força deste mar pela qual “seus filhos” tiveram que passar o olhar humano sobre os Orixás buscando quer entender, integrá-los em nossas Normas ou, pelo menos, relacioná-los com algo que já conhecemos. Yemanjá virou em países da Diáspora, como Brasil e Cuba, o Orixá em Xiré mais popular. E como outras estrelas, ela também recebeu uma imagem. As vezes omitida, mas espero que inspiradora – viagem, que segue tanto as imagens publicamente dominantes, quanto outras alternativas e complexas representações.
Iemanjá é a orixá mais popular do Brasil e a única que tem festas e feriados em sua homenagem. O país, que tem uma enorme costa, torna a pesca uma grande atividade, rendendo frutos a muitas famílias.

Literatura indicada
• IEMANJA NO BATUQUE
• IEMANJA NO CHAMBÁ
• ORIXÁ DOS LAGOS E LAGOAS

Uma fro abraço.
Claudia Vitalino
Historiadora – Escritora -Ativista do Movimento Negro – Sindicalista – Roteirista

Fonte:
A Lendas Africanas dos Orixás. Tradução: Maria Aparecida da Nóbrega, 4ª edição, Corrupio: Salvador, 1997
ABIMBOLA, Wande Abimbọla; MILLER, Ivor.Ifá Will Mend Our Broken World: Thoughts on Yoruba Religion and Culture in Africa and the Diaspora. Iroko academic publishers, 1ª edição, 1997; 2ª edição, 2003 (em inglês).
ASANTE, Molefi Kete. As I Run Toward Africa: A Memoir. Routledge, 2015.
ASSEF, Carlos Renato. O Candomblé e seus Orixás. Ed. LeBooks, 2013.AUGRAS, Monique. De Iy
á mi a pomba-gira: transformações e símbolos da libido. In: Moura, Carlos Eugênio. Candomblé, religião do corpo e da alma: tipos psicológicos nas religiões afro-brasileiras. Rio de Janeiro, Ed. Pallas, 2000.
BARBOSA JUNIOR, Ademir. O livro essencial de Umbanda. Universo dos Livros Editora, São Paulo, 2014.
BASCOM, William W. Sixteen Cowries: Yoruba Divination from Africa to the New World. Indiana University Press, 1980.
A experiência dos orixás: um estudo sobre a experiência religiosa no candomblé. Editora Vozes, 1998.
BLASS, Leila Maria da Silva. Dois de fevereiro, Dia de Iemanjá, Dia de Festa no Mar. Revista Nures Nº 5, Janeiro/Abril 2007 – Núcleo de Estudos Religião e Sociedade – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.



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Claudia vitalino

UNEGRO-União de Negras e Negros Pela Igualdade -Pesquisadora-historiadora CEVENB RJ- Comissão estadual da Verdade da Escravidão Negra do Estado do Rio de Janeiro Comissão Estadual Pequena Africa. Email: claudiamzvittalino@hotmail.com / vitalinoclaudia59@gmail.com

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