LITERATURA NEGRA

LITERATURA NEGRA

Entende-se por literatura negra a produção literária cujo sujeito da escrita é o próprio negro. É a partir da subjetividade de negras e negros, de suas vivências e de seu ponto de vista que se tecem as narrativas e poemas assim classificados.

É importante ressaltar que a literatura negra surgiu como uma expressão direta da subjetividade negra em países culturalmente dominados pelo poder branco

Principalmente os que receberam as diásporas africanas, imigrações forçadas pelo regime do tráfico negreiro. É o caso do Brasil, por exemplo.

A chamada literatura brasileira oficial ou canônica, ou seja, aquela que corresponde aos livros “clássicos”, contemplados pelos currículos escolares, reflete esse paradigma da dominação cultural branca: é, em sua maioria esmagadora, escrita por brancos retratando personagens brancos.

A presença de personagens negras é sempre mediada por esse distanciamento racial

Portanto, de modo geral reproduz estereótipos: é a mulata hiper sexualizada, o malandro, o negro vitimizado etc.

É o caso das personagens negras de Monteiro Lobato, por exemplo, retratadas como serviçais sem família (Tia Anastácia e Tio Bento), e aptos à malandragem como um fator natural (como o Saci-Pererê, jovem sem vínculos familiares que vive enganando as pessoas do sítio).

Assim, é por meio da literatura negra que as personagens e autores negros e negras retomam sua integridade, assim como e sua totalidade enquanto seres humanos. Rompem o círculo vicioso do racismo institucionalizado, entranhado na prática literária até então.

“A discriminação se faz presente no ato da produção cultural, inclusive na produção literária. Quando o escritor produz seu texto, manipula seu acervo de memória onde habitam seus preconceitos. É assim que se dá um círculo vicioso que alimenta os preconceitos já existentes. As rupturas desse círculo têm sido realizadas principalmente pelas suas próprias vítimas e por aqueles que não se negam a refletir profundamente acerca das relações raciais no Brasil”.

Os Cadernos Negros foram criados a fim de compilar e divulgar produções de autores negros.

Origens: breve panorama histórico

O conceito de literatura negra consolidou-se em meados do século XX, com o surgimento e o fortalecimento dos movimentos negros.

A pesquisadora Maria Nazareth Soares Fonseca pontua que a gênese das manifestações literárias negras em quantidade deu-se na década de 1920.

Com o chamado Renascimento Negro Norte-americano, cujas vertentes – Black Renaissance, New Negro e Harlem Renaissance – resgatavam os vínculos com o continente africano, desprezavam os valores da classe média branca americana e produziram escritos que constituíram importantes instrumentos de denúncia da segregação social, bem como direcionavam-se à luta por direitos civis do povo negro.

Segundo Fonseca, foi essa efervescente produção literária a responsável pela afirmação de uma consciência de ser negro, que depois espalhou-se para outros movimentos na Europa, Caribe, Antilhas e diversas outras regiões da África colonizada.

É importante ressaltar que há diversas tendências literárias dentro do conceito de literatura negra.

As características mudam de acordo com o país e o contexto histórico em que o texto é produzido. Assim sendo, a literatura produzida no início do século XX nos Estados Unidos foi diferente daquela produzida em Cuba (o chamado Negrismo Crioulo).

Por sua vez, ele diferiu das publicações do movimento da Negritude, nascido em Paris, na década de 1930. O mesmo se deu com a produção negro-brasileira teve suas próprias peculiaridades, pois a experiência de ser negro em cada um desses territórios é também diversa.

Embora o conceito de literatura negra tenha aparecido apenas no século XX, a produção literária feita por negros e abordando a questão negra existe no Brasil desde o século XIX, mesmo antes do fim do tráfico negreiro.

É o caso dos poucos lembrados (e abolicionistas) Luiz Gama e Maria Firmina dos Reis.

Maria Firmina dos Reis a primeira romancista negra da América Latina. Seguramente a primeira autora mulher abolicionista da língua portuguesa.

É o caso também dos célebres Cruz e Sousa, ícone do movimento simbolista, do pré-moderno Lima Barreto e do maior escritor da literatura brasileira, Machado de Assis – este último, constantemente embranquecido pela mídia e pelas editoras, a ponto de muita gente desconhecer que era negro.

Os mais de três séculos de escravidão normalizaram, no Brasil, a exclusão cabal da população negra da participação cidadã e sua incorporação aos meios oficiais de cultura. Resistindo nas franjas desse sistema, a intelectualidade negra fundou, em 1833, o jornal O Homem de Cor, publicação de cunho abolicionista, uma entre várias que se manifestaram em número cada vez maior ao longo do século XIX e XX, reivindicando as pautas que os outros veículos de mídia não contemplavam.

A imprensa negra, aliás, é uma pedra fundamental da imprensa brasileira, de modo que a própria Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi fundada por um escritor negro, Gustavo de Lacerda.

Três grandes abolicionistas negros brasileiros

Importante marco para a consolidação da literatura negra no Brasil foi o surgimento dos Cadernos Negros, antologia de poesia e prosa, lançados pela primeira vez em 1978.

Nascidos do Movimento Negro Unificado contra Discriminação Racial – que depois tornou-se simplesmente MNU (Movimento Negro Unificado) –, um dos vários instrumentos sociais de engajamento político da época.

Os Cadernos surgiram principalmente em prol de um autorreconhecimento, conscientização política e luta para que a população negra tivesse acesso à educação e aos bens culturais.

A primeira edição, formatada em tamanho bolso e custeada pelos oito poetas que nela figuravam, recebeu um grande lançamento, circulou em algumas poucas livrarias e também de mão em mão.

Desde então, foi lançado um volume por ano da coletânea, cuja editoração é feita pelo Quilombhoje

Grupo de escritores comprometidos com a divulgação e circulação da produção literária negra no Brasil.

“O dia que os críticos de literatura brasileira estiverem mais atentos pra escrever a história da literatura brasileira, querendo ou não eles vão incorporar a história do grupo Quilombhoje.

Tem que ser incorporada.

Na área de literatura brasileira como um todo, é o único grupo que […] tem uma publicação ininterrupta durante 33 anos. […]

Acho que quando surgirem historiadores, críticos que tenham uma visão mais ampla da literatura, vai ser incorporada. Essa é a dívida que a literatura brasileira tem com o grupo Quilombhoje.”

Foi em meados da década de 1970 que os jovens negros começavam a ocupar em quantidade as universidades. Ainda assim constituindo uma exceção diante da população negra como um todo, que continuava excluída espacialmente, pois constantemente empurrada para as periferias a partir dos programas habitacionais de governos e municípios, além de marginalizada também economicamente e culturalmente.

“Aquele jovem negro chegando à universidade e não encontrando representações de seu povo na literatura, nos estudos históricos e sociológicos, se pergunta: por quê? Tinha-se até então a imagem – o senso comum – de que o negro não produzia literatura e conhecimento.

Vozes da literatura

Muitos são os expoentes da literatura negra no Brasil atualmente.

A seguir, você encontra uma breve lista com alguns autores e autoras mais conhecidos, por ordem de nascimento, com um trecho de amostragem de sua obra.

Primeira mulher a publicar um romance no Brasil, o trabalho de Maria Firmina dos Reis foi um precursor da literatura abolicionista brasileira. Assinado com o pseudônimo “uma maranhense”, Úrsula foi lançado em 1859.
A autora, filha de pai negro e mãe branca, foi criada na casa da tia materna, em contato direto com a literatura desde a infância. Além de escritora, Maria Firmina dos Reis foi também professora e chegou a lecionar para salas mistas – meninos e meninas, brancos e negros, todos na mesma turma –, uma grande inovação no século XIX, e também um enfrentamento às instituições patriarcais e escravistas da época.

Grande líder abolicionista, Luiz Gama era filho de pai português e de Luiza Mahin, negra acusada de ser uma das lideranças da Revolta dos Malês, um grande levante de escravos que ocorreu em Salvador em 1835.

Vendido pelo pai aos 10 anos de idade, foi escravo doméstico até os 18 anos, quando consegue provar que, letrado e filho de mulher livre, não podia ser cativo. Ingressou na Força Pública da Província de São Paulo e depois tornou-se escrevente na Secretaria de Polícia, onde teve acesso à biblioteca do delegado.

Confira a lista de obras e dramaturgos

Antimorais de uma travessia interrompida ; Aldri Anunciação
Esperando Zumbi ; Cristiane Sobral
Ialodês ; Dione Carlos
Vaga carne ; Grace Passô
Farinha com açúcar ou sobre a sustança de meninos e homens ; Jê Oliveira
Buraquinhos ou o vento é inimigo do Picumã ; Johnny Salaberg
Fluxorama ; Jô Bilac
Cartas a madame Satã ou me desespero sem noticias suas ; José Fernando Peixoto de Azevedo
Recita n;3 ; Figurações ; Leda Maria Martins
Será que vai chover ; Licínio Januário
Carne viva ; Luh Maza
Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus ; Maria Shu
O pequeno príncipe preto ; Rodrigo França
Medea mina deje ; Rudinei Borges dos Santos
Mercedes ; Sol Miranda
Cavalo de santo ; Viviane Juguero



Uma afro abraço.
Claudia Vitalino
Historiadora – Escritora -Ativista do Movimento Negro – Sindicalista – Roteirista
Fonte enciclopedia livre

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Claudia vitalino

UNEGRO-União de Negras e Negros Pela Igualdade -Pesquisadora-historiadora CEVENB RJ- Comissão estadual da Verdade da Escravidão Negra do Estado do Rio de Janeiro Comissão Estadual Pequena Africa. Email: claudiamzvittalino@hotmail.com / vitalinoclaudia59@gmail.com

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